

Tal como Street Fighter II, eu penso que os primeiros jogos da série Tomb Raider foram seriamente overrated, se bem que era verdade que não se podia esperar muito da quinta geração de videojogos, onde o 3D ainda mal andava em desenvolvimento e muitas software houses faziam todo o tipo de experiências com o mundo das três dimensões. Para mim, os primeiros jogos da venerada Lara Croft, um dos grandes símbolos sexuais do mundo dos videojogos (ao lado de Tifa Lockheart e Mai Shiranui) tinham uma excelente atmosfera e imersividade a nível sonoro e ambiental, mas isso para mim era apenas a cobertura doce de um bolo bolorento, porque estes jogos tinham físicas irritantes e comandos cheios de lag e imprecisão.
Verdade que isto era o começo, mas mesmo assim acho imperdoável e para grande cúmulo, a primeira entrada de Lara na sexta geração (PS2) persistiu com essas horríveis mecânicas, isto numa geração onde já havia de existir mais do que experiência no manuseamento de motores de jogo 3D.
Haja Deus, no entanto, quando um indivíduo da Crystal Dynamics achou que a mecânica de jogo de Tomb Raider deveria ser retrabalhada usando como base o motor de jogo de Legacy of Kain: Defiance, talvez um dos melhores jogos da geração passada e que teve excelentes prequelas como Blood Omen, Blood Omen 2 e Soul Reaver 2 (o primeiro Soul Reaver era interessante, mas pecava por puzzles por vezes confusos e formas obtusas de derrotar bosses assim como o facto de utilizar uma versão melhorada do motor de jogo dos primeiros Tomb Raider, melhorada no sentido que passou do medíocre para o não tão mau). O resultado que obtivemos com essa magnifica ideia foi Tomb Raider: Legends, um jogo de Tomb Raider que valia a pena sem dúvida jogar, e mais tarde veio um remake do primeiro título da série que utilizou esse mesmo motor de jogo (e que acabou por ser tão bom como Legends).

Hoje, foi concedida à humanidade um novo Tomb Raider que seguia esta nova filosofia que deu um novo começo à serie, começo este que finalmente despertou a minha atenção completa para a Indiana Jones das mulheres (e considerada por muitos como a sucessora espiritual de Rick Dangerous); o jogo que coloco hoje em questão é Tomb Raider: Underworld.
Tomb Raider: Underworld decorre logo a seguir do ponto onde terminou a história de Legends, com o conhecimento de a sua se encontra viva, Lara parte para a cidade céltica mitológica de Avalon, local onde a sua mãe supostamente ainda poderia ser encontrada viva.

A mecânica de jogo de Tomb Raider: Underworld revela-se bastante mais flexível e menos restritiva que em Legends e Anniversary, o movimento é bastante livre e responsivo, assim como as diversas acções que podem ser executadas em diferente planos como saltos (em solo ou em paredes), baloiçar em cordas, nadar (sinto que este último era um bocado mais restrito) e acrobacias em postes e hastes. As fases de combate revelam-se bastante avantajadas graças à presença de um botão de lock-on, movimentos de evasão para evitar o recebimento de dano e ainda a possibilidade de trocar de armas em tempo real com apenas um toque do D-Pad tornam o combate numa tarefa de acção em movimento constante que só termina a partir do momento em que o jogador elimina os seus adversários, isto sim é o que eu posso chamar de combates realistas.
A exploração, embora seja inteiramente opcional, joga um papel importantíssimo no enriquecimento da experiência de jogo na medida que permite usufruir melhor no factor de diversão e também no descobrir de vários tesouros espalhados pelos níveis fora, que vão desbloqueando uma série de conteúdos bónus para se observar (como concept arts). Como já é tradicional da série, os puzzles têm um grande predomínio na exploração do ambientes, muitos deles são simples e divertidos, outros escondem a sua facilidade através de uma estrutura ambiental intimidante enquanto outros requerem que a pessoa puxe uma bocado mais pela cabeça. O facto é que muitas das situações que requerem raciocínio e pensamento lógico acabem por ser demasiado fáceis, mas a sua originalidade ajudou-me imenso a divertir-me com o uso do pensamento.
Mas a verdadeira nata da colheita em Underworld é a mesma de todos os jogos do passado, a experiência imersiva que é captada pelos ambientes que rodeiam o jogador. Só a faceta gráfica deste jogo é deslumbrante que chegue para deixar qualquer amante de paisagens maravilhado, sim é verdade que tudo o que se vê aqui pode não ser tão real como parece, mas há que dar crédito a Crystal Dynamics, não só fizeram eles um excelente trabalho no nível de detalhe gráfico do meio e das texturas como também atribuíram uns aspectos verdadeiramente reais a este. As bolhas de ar formadas com a movimentação do corpo ao nadar, a luminosidade da água a ser reflectida em rochas e paredes, os efeitos visuais (aquela vibração calorenta) e luminosos do fogo são muitas das coisas que dão vida ao jogo, verdade que muitas delas podem não ser novidade hoje em dia, mas demonstram que os criadores sabiam perfeitamente o que os jogadores queriam ver nos ambientes de jogo, uma sensação que os sugasse lá para dentro. Aliás, nem tudo é doce, mas o que não é doce também é mínimo por assim dizer, Underworld apresenta alguns problemas de câmara durante secções subaquáticas ou em cantos muito apertados de determinadas salas.

Juntamente com os factores visuais, temos os efeitos sonoros ambientais que ajudam a realçar ainda mais a experiência de jogo, claro que, uma boa banda sonora é algo que não falta a este jogo, quase saída de um filme e com um pequeno toque de magia orquestral, esta não passa de lado com o decorrer da acção e encontra bem integrada no sentido em que muito do seu ritmo coincide com uma grande parte da natureza calma de Underworld.
Tomb Raider: Underworld é sem sombra de dúvidas o melhor Tomb Raider até hoje feito, isto vindo de alguém que nunca desfrutou muito das águas passadas da série pode parecer um bocado exagerado, mas o facto, é que este foi o único que conseguiu superar as minhas expectativas no sentido de que estava prestes a jogar mais do mesmo que eu gostei, mas o que joguei foi ainda melhor do que Legends ou Anniversary. Dito isto, acredito que tanto amantes da senhora Croft e das suas aventuras como iniciados nesta irão desfrutar e apreciar ao máximo a mais recente obra da Crystal Dynamics, uma obra que nem eu tenho a certeza se a referida companhia jamais alguma vez chegará a ultrapassar em termos de qualidade com um futuro jogo da mesma série, mas uma coisa é certa e dessa coisa eu gosto, nós estamos perante uma nova geração de jogos da Lara Croft que servirá como uma base essencial para um futuro belo e cheio de boa qualidade para a mítica série da adorada salteadora de túmulos.
9/10 -- Recomendado