
A Operação Market Garden foi um plano ambicioso para terminar a segunda Guerra Mundial após o famoso desembarque na Normandia, antes do Natal de 1944. O plano era largar por via aérea todo um exército na Holanda, uma operação aérea cuja escala até hoje ainda não foi igualada, e atravessá-la até à Alemanha, criando um corredor, uma auto-estrada, até ao coração do inimigo. Mas as tropas de Hitler estavam à espera, e a carnificina que se seguiu foi a ultima grande vitória alemã - apelidada por quem a viveu como "a Auto-Estrada do Inferno". Neste novo Brothers in Arms, assumimos o papel do Sargento Matthew Baker, conduzindo o seu esquadrão ao longo desta coluna infernal.
Brothers in Arms é muito diferente do típico shooter. Sim, controlamos a nossa personagem na primeira pessoa, tomamos cobertura por detrás de muros, mobília e outros objectos, e disparamos para matar, mas a componente táctica é a mais prevalecente. Um par de balas bem disparado mata um inimigo, mas o mesmo se pode dizer de Baker. Com o pressionar de um par de botões, podemos dar várias ordens aos esquadrões sob o nosso comando; fogo de cobertura distraí os alemães, permitindo a outro esquadrão, ou a Baker, dar a volta e atacá-los de lado. Podemos também ordenar ao esquadrão para tomar cobertura para emboscadas, ou destruir cobertura inimiga. Além disso, há esquadrões com várias especialidades, como por exemplo esquadrões de balística para destruir veículos inimigos. Este pequeno mas versátil leque de movimentos tácticos, combinado com um excelente design de níveis, bastante linear mas sempre com aspecto muito aberto, torna BiA algo de único no panorama actual. Cria um bom balanço entre acção bélica e táctica, de tal forma que as partes mais fracas do jogo são mesmo aquelas em que estamos sozinhos, tornando-se o jogo um banal FPS.
Os comandos, tanto tácticos como de acção, são fluidos e fáceis de utilizar. Depressa se apanha o jeito de apontar os alvos aos nossos aliados, e o sistema de cobertura do jogo é muito intuitivo de utilizar. As armas oferecem boa noção de impacto, e o movimento da personagem é muito bem retratado, cheio de inercia enquanto corre ou salta muros. Piores são os gráficos, que contam com efeitos atmosféricos, de chuva e iluminação, muito bons, mas revelam-se por vezes um pouco quadradões. A Holanda rural está artisticamente muito bem representada, com os seus campos verdes e quintas; as cidades também não lhe ficam atrás, e os interiores são surpreendentemente ricos em detalhe, mas o motor simplesmente não está à altura do nível artístico, e as personagens têm um aspecto muito artificial. Nada bom, considerando que os principais temas da série são a irmandade, camaradagem, e sentido de perda. Infelizmente, depende de termos interesse pelas personagens, e é difícil importarmo-nos com estas, até porque companheiros caídos em combate regressam no final do nível...
Já as vozes estão muito boas, mas o guião podia ser um pouco mais trabalhado. É uma pena que um bom trabalho de voice-over se tenha perdido com falas tão desinteressantes e inadequadas. O jogo merecia melhor, até porque a acção coloca os personagens em situações brutalmente tensas. A Gearbox, produtores de BiA, teve ao longo de toda a série a experiência de Jonh Antal, Coronel reformado do exército americano, para assegurar a autenticidade da experiência, tanto a níveis bélicos como de ambiente. O coronel quis assegurar que, dentro dos limites de um jogo, a experiência da guerra seria o mais crua possível. E isto reflecte-se nos cenários de guerra com que nos deparamos; os nossos aliados podem voltar à vida facilmente, mas a nossa sensação de mortalidade é constante, e em cada batalha sentimos que trilhamos sobre o fio da navalha. Muito ajuda o som, não tanto pela música, fácil de ignorar, mas pelos efeitos sonoros, tiros e explosões, realizados de forma magistral. Uma granada a explodir perto de nós, terra a voar pelo nosso campo de visão, o estrondo azunir nos ouvidos, é o tipo de coisa que rotineiramente nos vai fazer mergulhar em pânico para a cobertura mais próxima.
Mas Brothers in Arms prima mesmo é por ser único na forma como mescla tácticas e tiros, revelando-se uma experiência que tem tanto de visceral como de cerebral. Não esperem gráficos de sonho, mas um competente jogo que vos vai satisfazer tanto a massa cinzenta como o dedo de gatilho. É uma infelicidade que o jogo tenha tantas arestas por limar, e nem se percebe porquê, visto que foi adiado várias vezes. O seu conceito mantêm-se raro e original, a implementação é sólida, mas a parte técnica ficou aquém daquilo que se exige num jogo da actualidade.
6/10 -- Mediano