

Os jogos retro continuam a ser talvez o melhor exemplo de como se devem fazer videojogos, isto devido à sua simplicidade e ao facto de serem aqueles que se podem agarrar e aprender a jogar num instante (não, jogos casuais não contam, pois nesses não se aprende mesmo nada e nem sequer requerem perícia para serem dominados). Agora quanto aos videojogos da actualidade, por muito bons que eles consigam ser, nunca chegarão aos calcanhares dos retro a nível nostálgico, para alem de que estes são ordenhados à força toda após o seu sucesso e embora o mesmo se passasse no passado, o leite que saia de lá das companhias era sempre de grande qualidade.
Mega Man, o bombardeiro azul e a mascote carismática da Capcom é talvez um exemplo certo de uma série ordenhada até aos extremos. Claro que, eles apenas iam buscar o leite à pior vaca, uma vaca sem saúde que nos concedeu a séria polémica que é Mega Man Battle Network (Mega Man Network Transmission foi talvez, o melhor da série e o que ela deveria ter sido em primeiro lugar) e os spin-offs vergonhosos Mega Man Battle & Chase e Mega Man Soccer. Quanto à serie Star Force, bom, na minha opinião, deve ser o único spin-off que faz bom uso da licença.

A série clássica, a primeira que começou com a lenda foi também a mais memorável para muitos jogadores por introduzi-los numa experiência de jogo revolucionária que mudaria o campo dos jogos de acção e plataformas para sempre. Eu no entanto, sempre preferi as séries X e Zero pelo seu enredo e setting mais maduro, já por não falar das novas mecânicas de jogo que introduziu, mas a série clássica é também uma que eu nunca ponho de lado por ser precisamente umas das séries de jogos de acção mais influentes da história dos videojogos.
Precisamente dez anos após vários pedidos de um Mega Man 9 para os fans, eis que a companhia decide conceder o nosso desejo com a confirmação do referido jogo. Quando foi confirmado, o mundo entrou literalmente numa onda de surpresa e agrado não só com umas notícias inesperadas mas como também na sua regressão às origens no mundo 8-bits da lendária NES (eles até fizeram uma capa vergonhosa como no primeiro Mega Man). Quando a espera acabou, eu apercebi-me de que estava diante de talvez um dos melhores feitos pela humanidade na indústria dos videojogos, precisamente ao lado de outras magnus opus como Braid e Super Mario Bros.

Depois de arruinar mais uma vez os planos de Dr. Wily, o mundo encontra-se outra vez em paz graças aos esforços heróicos do Mega Man, mas passados uns poucos dias, robôs atacam o mundo novamente e quando os dedos são todos apontados a Wily, eis que a televisão nos revela que os robôs atacantes pertencem a Dr. Light, o criador do bombardeiro azul. Wily declara na TV a nível mundial que todos os seus planos de dominação do mundo não eram mais do que esforços para impedir Dr. Light, a quem ele considera o verdadeiro antagonista este tempo todo, de dominar o mundo e ele o prova com um vídeo. Claro que Mega Man, com consciência de que Light jamais tentaria cometer tal acto, parte numa nova batalha para limpar o nome do seu criador e aspirante à paz entre robôs e humanos.
Este jogo regressa às raízes em grande, apesar de conter uma jogabilidade simples, este não deixa de ser talvez um dos jogos mais difíceis da actualidade. Para além de estar recheado de combates padronizados por toda a parte, o mesmo se pode dizer da secção de plataformas onde somos forçados a fazer saltos cuidadosos em plataformas pequenas enquanto somos arrastados por vento e atacados por inimigos, não só isso como também podemos contar com a presença dos famosos blocos fantasma que ainda hoje frustram e ceifam vidas aos jogadores de todo o mundo. Uma típica tradição irreversível neste Mega Man é a mecânica do “pedra, papel, tesoura”, ou seja, os chefes apesar de poderem ser derrotados com uma arma normal e com uma memorização cuidada dos seus padrões, o trabalho é mais facilitado se descobrirmos e tirarmos vantagem do ponto fraco do adversário com o uso de uma nova arma que pode ser obtida assim que se derrota cada um dos chefes.
Muita gente se queixa de que o grande problema e desmotivação para se jogar Mega Man 9 é o seu nível de dificuldade brutal como já foi acima referido, mas por amor Deus, embora eu não aprecie muitos jogos difíceis, existem muitos outros que conseguem ser ainda piores como Contra 4, Maximo: Ghosts to Glory e Ghosts ‘n’ Goblins (depois não se admirem que o senhor Itagaki, mestre dos ninjas ande por aí a dizer que os jogos fáceis são para cães e que os jogadores de hoje em dia são uns chorões). A série Mega Man sempre foi uma que deve ser difícil, pois só assim é que dá para entender toda a diversão e adrenalina que o jogo nos deseja transmitir, se morrerem no jogo não desistam pois nada é impossível e a série Mega Man foi uma daquelas onde só aprendemos a corrigir os nossos erros e não a lamentarmo-nos deles através de morte atrás de morte. Este consegue ser também um dos melhores Mega Man a nível de design dos níveis, não só pelos seus gráficos mas também pela sua estructura.

O meu irmão que diz que acha despropositado terem criado um jogo novo com uns gráficos tão ultrapassados para um serviço de distribuição digital. Eu devo concordar com ele de que os gráficos 8-bits não são muito apelativos hoje em dia, mas sinceramente, só costumo pôr em causa os gráficos de um jogo quando estes são em 3D, pois esse envelhecem muito mal com o tempo, mas nos jogos 2D, eu vejo os gráficos como uma componente artística que dá carácter ao jogo e eu sempre desfrutei de jogos 2D pela sua jogabilidade. Vi apenas os gráficos como um elemento para deixar uma marca nostálgica do belo nos nossos coração, algo que a Capcom desejou transmitir com este Mega Man para recapturarem ainda mais a essência das suas origens, e além do mais, era pior se os gráficos pertencessem a um jogo de Atari 2600 (esses ai sim que são intragáveis) e existem por aí muitos jogos 8-bit que passam facilmente por jogos de 16-bit quando dada atenção ao detalhe gráfico, é o caso de jogos como Batman: Return of the Joker (um jogo mais difícil que Mega Man 9, devidamente por injustiça) e Kirby’s Adventure.
Tal como na velhinha NES, tanto a banda sonora como os efeitos sonoros foram criados com antigos programas de linguagem sonora para NES e ainda hoje fico surpreendido por ouvir uns sons magníficos de um jogo 8-bit. Os efeitos sonoros continuam a ser aqueles que estamos habituados a ouvir enquanto jogamos Mega Man. Mas é na banda sonora onde este departamento brilha, todas as faixas musicais estão cheias de ritmo e nostalgia tal como nos anteriores jogos da série, eu pessoalmente, acho que o tema do Magma Man é o melhor e aquele que consegue tocar espiritualmente no coração do jogador retro que reside dentro de nós, uma composição fantástica sem sombra de dúvida.

Mega Man 9 é definitivamente um dos candidatos a jogo retro/descarregável do ano, não só nos oferece algo novo como também o faz da forma como as pessoas se habituaram a jogar os seus jogos, nas suas raízes, e a diversão não acaba quando se termina o jogo pois existem montanhas de desafios tipo achievements a cumprir (alguns são ridículos até ao ponto de serem impossíveis, acabar o jogo sem falhar um único tiro anyone?) e muito conteúdo descarregável para expandir a experiência de jogo (Proto Man e modos extras), ah sim… é bom ver como há coisas que não mudam, segue em frente Mega, continua a lutar por um melhor futuro para a humanidade!
10/10 -- Essencial