FRACTURE - PS3 (VERSãO ANALISADA), X360
20 de outubro, 2008 11:30 AM por Luis Magalhães
Deformação de terreno: o primo pobre dos motores de física. Já na altura da PS2 se celebrava como era possível partir garrafas individuais nos bares de Metal Gear Solid 2, ou como parecia que passado um furacão por todas as salas onde Max Paine metia o pé. Muitos jogos começaram desde cedo a atribuir comportamentos realistas a objectos e personagens, mas muito poucos se debruçaram sobre o destruir de cenário, e ainda menos, sobre o manipular de terreno. Fracture, da Lucas Arts e Day One Studios, vai mais longe do que a maioria, mas será isso o suficiente?
Não, não é. Disse uma vez Warren Spector, em entrevista à britânica EDGE, se não estou em erro, que "Ideias toda a gente tem, são fáceis de ter, realizá-las bem é que é o desafio." Bem se aplica aqui. Fracture é uma história de potencial por concretizar. Ostensivamente um shooter na terceira pessoa, falta-lhe uma mecânica agradável e definida. Os conhecidos "30 segundos de diversão" de Halo, fruto da interacção entre IA e jogador; o "expõe, dispara, esconde" de Gears; a estrutura impecavelmente cronometrada de Call of Duty; tudo exemplos de design que permitem ao jogador encontrar um ritmo, ganhar conforto e ultrapassar a barreira do comando, imergindo-se no jogo. Em Fracture, não existe nada semelhante.
A aceleração do
stick direito é demasiada, pelo que apontar as armas para os inimigos é um exercício de pouca precisão, lembrando os
FPS pré-
Halo, desenhados para
PC. A inteligência artificial é inconstante, e o nosso arsenal é pouco interessante, sendo as poucas armas que fogem à norma do
shooter habitual, fracas ou de pouca utilidade. O combate é, no geral, enfadonho, um exercício de tentar manter o inimigo no nosso retículo durante o maior período de tempo possível. O ás do jogo, a arma e granadas que nos permitem baixar e levantar terreno em tempo real, para criar cobertura e confundir (ou esmagar) inimigos, são a única coisa que confere interesse aos confrontos, mas não salvam de todo as mecânicas medianas.
Uma pena, pois no geral os inimigos são mais variados do que os do habitual
FPS. Embora em termos estéticos todos muito semelhantes, vão sendo introduzidos com frequência inimigos com novas características, até que no final do jogo há uma variedade agradável deles para confrontar.
Fora das batalhas, a deformação de terreno é uma característica fraca, utilizada para resolver puzzles que nunca vão para além do básico - erguer terreno para ajudar um salto mais alto, levantar um objecto, etc. Qualquer coisa ligeiramente mais complexa, temos o nosso comandante a gritar-nos a solução ao ouvido. Sim, neste jogo quase nunca há surpresas, ou necessidade de pensar por nós mesmos. Da mesma forma, as personagens são completamente estéreis. Entre todas elas deve haver uma quantidade de personalidade equivalente à de umoreo . Pelo final do jogo não temos interesse em nenhuma delas, não que o jogo tenha sequer tentado - o seu interesse é bombardear-nos com a sua história altamente americana acerca de como a costa Este entrou em guerra com a costa Leste (e nunca se percebe muito bem porque é que os "maus" são "maus", ao invés de simplesmente pessoas com ideologias diferentes; se há laivos de sátira aqui, estão mal alinhavados).
Os cenários são bonitos, e a deformação de terreno constante dá azo a umas sequências visualmente estimulantes, tal como algumas sequências mais sui generis que acontecem muito espaçadamente ao longo do jogo (a obrigatória sequência de veículo é um ponto alto). Mas o pouco de bom que se encontra aqui é mais uma vez perdido num mar de mediocridade, culminando o jogo numa sequência final anti-climática; não que houvesse muito por onde sacar um clímax, porque, como já foi mencionado, é impossível desenvolver qualquer tipo de simpatia pelas personagens ou pelo universo de jogo. A salvação ainda poderiam ser os modos online, onde a imprevisibilidade da deformação de terreno se faria sentir melhor, mas a mecânica de tiro continua a ser desagradável, e há muito poucas pessoas a jogar online, fazendo com que seja difícil encontrar uma partida.
A melhor coisa em Fracture, curiosamente, é a banda sonora, realmente magnífica e digna da chancela Lucas Arts; não ficaria mal numa grande produção cinematográfica. Infelizmente, a realização da ambição deste título fica aquém de tais composições épicas; há dois anos, Fracture teria sido um marco, mas hoje, e tendo em conta os grandes shooters que se avizinham, não há como o recomendar.
5/10 - Mediano