
Foram muitas as horas perdidas na velha Playstation, com Soul Edge. Na altura o jogo da Namco estava a anos-luz da competição, com grandes efeitos visuais e personagens que brandiam todo o tipo de espadas e armas marciais. Até a introdução, que hoje nos parece CGI fraco ao som de uma musica rock cantada terrivelmente (com letra que nem faz sentido?), na altura era uma revelação do potencial da consola da Sony. Mas por alguma razão a Namco decidiu fazer um reboot à série, e assim, a Dreamcast recebeu não Soul Edge 2, mas Soul Calibur, e para mim foram mais dezenas de horas perdidas a desbloquear personagens e combater com amigos. Depois de mais duas iterações, a série chegou agora à actual geração de consolas, e está mais que à altura da sua linhagem.
Soul Calibur IV mantém aquele acto de balanço tão único à série: é dos poucos jogos que consegue apelar tanto aos novatos como aos hardcore. É possível carregar nos botões aleatóriamente, e sim, acabar assim o modo principal de jogador único, e ser moderadamente competitivo contra outro jogador, desde que este não esteja no segundo grupo: o dos jogadores que se dedicam a aprender asnuances e dezenas de golpes e combinações de um par de personagens para se especializarem. A abordagem é viável em Soul Calibur IV; embora algumas personagens partilhem estilos de luta, há muitos destes, e mesmo assim cada personagem tem uma boa porção de golpes únicos. Por debaixo da acessibilidade inicial está um dos jogos de luta mais profundos de sempre.
Na época dos primeiros títulos da série, eu estava incluído neste grupo, mas agora há menos tempo para tal dedicação, e acabo por me encontrar algures no meio entre o novato e o hardcore. E Soul Calibur IV é imediatamente apreciável para o jogador casual, com personagens carismáticas e detalhadas, num estilo visual que deve tanto ao realismo da nova geração como às suas inspirações animé; efeitos visuais luxuosos que acompanham cada golpe; e uma banda sonora épica que rivaliza as composições adoradas do segundo episódio da série. Grande novidade é dar ao jogador a possibilidade, via modo de criação de personagem, de criar o seu lutador personalizado. Quanto mais se joga, mais estilos de luta, membros para o corpo, peças de vestuário e armas se desbloqueiam, tornando-se este editor uma riquíssima ferramenta de criação. Desde uma representação de nós próprios, até de personagens de outros jogos, tudo é possível com tempo e habilidade. E tal como com o recente Spore (se bem que em menor escala) já não faltam na Internet fotos de mil e uma recriações de personagens de videojogos, filmes, séries, etc.
Embora o melhor do jogo, como sempre neste género, seja o modo versus (nesta versão possível pela Internet, ainda que com qualidade variável, ora muito boa, ora muito má) há aqui muito para entreter o jogador solitário (e não estou a falar das proporções generosas de Ivy e companhia). Há quinze personagens para desbloquear, tal como o tradicional museu com artwork e extras; mas o grosso do tempo será passado na Torre das Almas Perdidas. Neste modo escolhemos duas personagens, e teremos que defrontar vários inimigos de seguida, com uma única barra de energia - quando a energia se acaba, a nossa segunda personagem substitui a actual. Uma vez vencidos todos os adversários de um "andar", voltamos ao menu de selecção e podemos progredir para o andar superior. Quanto mais alto, mais difíceis são os desafios, mas com melhor equipamento (armas e armaduras) seremos recompensados. Isso mesmo, num toque de RPG, agora podemos equipar as nossas personagens com habilidades e itens, e neste modo, é mesmo essencial, pois há lutas com condições de vitória muito exigentes.
Soul Calibur IV é tão profundo como o jogador que o joga quer que ele seja. Tanto pode ser um desafio para semanas como um passatempo para a ocasional tarde com amigos ou parentes. A riqueza e complexidadeestá lá para quem a quiser, e para quem as dispensar, sobra um jogo belíssimo e divertido. É difícil pedir mais de um jogo de luta, e este destaca-se assim como o melhor da sua geração.
9/10 -- Recomendado