ALONE IN THE DARK -- PC (VERSãO TESTADA) E X360
12 de setembro, 2008 01:30 PM por Luis Magalhães
Apesar de ter o Alone in the Dark original na prateleira há mais de 15 anos, nunca o joguei. Nunca consegui achar tempo para o meter na drive e dar uma rodada, por isso foi sem ideias pré-formadas que comecei a jogar o novo Alone in the Dark, feito pela Eden Games. O jogo esteve sob o olho público com base em inúmeras promessas: uma experiência de jogo cinematográfica, um modelo por episódios que prevenia o jogador de ficar encravado no jogo, e mecânicas dinâmicas de física e fogo, entre outras coisas. E o jogo concretiza nestes aspectos, em maior ou menor grau. Infelizmente, há algumas áreas fundamentais em que não é tão bem sucedido.
O jogador controla o protagonista do original Alone in the Dark, desta feita em Nova Iorque dos tempos modernos; acorda zonzo e drogado num apartamento, ameaçado e controlado por homens misteriosos. O jogo revela de imediato as suas qualidades cinematográficas. Fiquei impressionado com a qualidade da actuação vocal e com o aspecto dos "actores virtuais". Esta é uma constante ao longo do jogo. A Eden Games demonstra uma mestria pouco comum na imaginação e execução de tanto sequências cinematográficas, como eventos jogáveis dentro do mesmo estilo. Quando no seu melhor, Alone in the Dark fez-me sentir como se estivesse num triller de acção. Infelizmente, a jogabilidade não está à altura dos eventos nos quais o guião nos coloca tão habilmente.
É caso para abrir aqui um parêntesis exclusivo à versão PC, que joguei. O jogo está notoriamente feito a pensar em consolas, e, embora haja um layout de teclado compreensivo, o jogo é praticamente injogável sem um comando. Para além do jogo não nos dar quase nenhum controlo sob a camera, o controle base na terceira pessoa depende da utilização de dois sticks analógicos: um para o movimento, e outro para orientar e manipular as armas e objectos agarrados. As teclas WASD e o rato revelam-se pobres substitutos para estas funções; já no modo de primeira pessoa, o controlo é muito mais fácil, mas visto que este modo não permite lutar corpo-a-corpo ou manipular objectos, é impossível jogar todo o jogo assim. Resumindo: um comando com dois manípulos analógicos é requisito mínimo para jogar Alone in the Dark.
Fechando o parêntesis, vou descrever uma cena perto do inicio do jogo que é emblemática da maioria do mesmo: depois de escapar de um prédio a desabar, os heróis encontram-se num automóvel a acelerar, com um terramoto vivo a persegui-los pelas ruas de Nova Iorque. A acção é estupenda. As ruas estão cheias de tráfico em pânico que é preciso esquivar, acidentes de viação, brechas no chão sobre as quais é preciso acelerar; uma banda sonora épica acompanha-nos enquanto conduzimos por entre este caos, edifícios a desabar à nossa volta. Poucos jogos nos conseguem transmitir tanta emoção numa sequência jogável. E depois (porque o nosso carro se controla como uma banheira) batemos num poste, e somos apanhados pelo terramoto. Morremos. Recomeçamos do inicio. Chegamos um pouco mais longe, mas não vemos para que lado temos que virar e vamos de encontro a uma brecha no chão. Morremos. Começamos do inicio. E assim se estraga uma excelente sequência: sem checkpoints, sem quicksaves, jogabilidade de tentativa e erro força-nos a repetir algo que, por bom que tenha sido da primeira vez, é agonizante à vigésima.
É este o maior problema de Alone in the Dark: não há falta de sequências brilhantes como a acima descrita, mas infelizmente, as dificuldade de manuseamento do personagem e tendência irritante do mesmo realizar acções contextuais erradas nos momentos menos oportunos (ligar e desligar a lanterna quando o que eu quero fazer ao carregar no "A" é pegar numa cadeira) acabam por nos fazer repetir dita ssequências mais do que é agradável. Quase todas as boas ideias do jogo têm uma contrapartida que as desvaloriza: o inventário limitado devia, em teoria, obrigar-nos a gerir bem os recursos, mas há tantos objectos essenciais que acabamos por simplesmente nunca utilizar outros a menos que sejam necessários para puzzles; os inimigos só se matam definitivamente com fogo, o que cria tensão, mas também nos obriga a passar largos períodos a escamotear o cenário por componentes inflamáveis; é possível usar o menu para passar para o episódio seguinte se estivermos encravados, mas ao custo de todos os nossos itens e munição, o que em algumas situações nos pode simplesmente deixar com a vida ainda mais dificultada. O sistema de saves é igualmente frustrante; é possível gravar em qualquer altura, mas só grava o nosso progresso até ao ultimo checkpoint, e nunca é muito claro onde é que esse foi.
Mas Alone in the Dark tem os seus méritos, para além da boa realização cinematográfica: os inimigos são variados, mesmo dentro do mesmo género, rápidos e mortais, contribuindo em muito para a tensão; as mecânicas de fogo, que nos possibilitam inflamar vários tipos de objectos e usá-los em combate ou para resolver puzzles, abrem possibilidades interessantes e são usadas para bom efeito em puzzles imaginativos. A maior parte do jogo passa-se em Central Park, que se revela uma localização interessante, vasta e com muitos segredos, ainda que só no terço final do jogo nos seja permitido explorá-lo livremente. A história é interessante e sem duvida melhor do que a do típico triller de terror, apesar de deixar algumas personagens e linhas de argumento por desenvolver ( e contar com aquela que é possivelmente a cena de romance mais forçada da história dos videojogos).
É por causa de jogos como Alone in the Dark que eu odeio dar pontuações. Primeiro, porque a experiência é fundamentalmente diferente dependendo do método de controle utilizado -- subtraiam 2 valores à pontuação se não tiverem acesso a um um comando com dois manípulos analógicos -- e segundo, porque apesar de ter vários defeitos irritantes e difíceis de engolir num jogo de 2008, eu diverti-me consideravelmente uma vez que entrei em sintonia com as peculiaridades do jogo. Por ultimo, as suas ideias inovadoras, quando tudo encaixa, contribuem realmente para momentos únicos, e fica a esperança de que a Eden Games e os criadores de jogos em geral decidam aprimorá-las em futuros jogos.
7/10 -- Mediano