
O Ninja foi, e ainda é, uma figura muito forte no imaginário de todos aqueles que cresceram com banda-desenhada, manga, e séries de televisão voltadas para a acção. O guerreiro ágil, subtil, forte e letal, vindo do oriente, armado com disciplina e magia. Vários jogos tentaram retratar alguns destes aspectos; os Ninja Gaiden originais, e mais tarde, o brilhante Ninja Gaiden para Xbox, foram os mais bem sucedidos -- ainda que mandando os aspectos de subtiliza e invisibilidade do ninja às urtigas, focaram-se no combate visceral mas disciplinado, e poucos os conseguiram bater nessa área. Agora chega até nós Ninja Gaiden II como a aposta da Microsoft para o verão que se avizinha. Estará à altura do desafio?
Em Ninja Gaiden II, iniciamos uma nova demanda com Ryu Hayabusa, descendente do clã do Dragão; o clã rival, a Aranha Negra, devastou a aldeia do clã de Ryu (outra vez...) e adquiriu um artefacto que está a usar para libertar demónios presos em vários locais em redor do mundo; cabe, é claro, aRyu perseguir os seus rivais e derrotar os demónios escapados.
Este argumento digno de um seriado de power-rangers tem três mais-valias: primeiro, é impossível não nos deixar bem dispostos de tão hilariantemente clichê que chega a ser -- tal como algumas das mais exageradas cenas de acção de sempre; segundo, é apresentado em sequências curtas, sendo uma boa pausa para relaxar da acção e não uma interrupção constante; e finalmente, é uma desculpa para NinjaGaiden II alternar entre localizações radicalmente diferentes de nível para nível -- entre elas, uma Nova Iorque destruída, os telhados de uma Tokyo futurista, ou cidades inspiradas em Veneza e Moscovo. Pena é que a qualidade dos cenários não seja constante -- se o castelo gótico, canais e catacumbas de Water Capital, ou os corredores modernos da fortaleza voadora dos Aranha Negra são por vezes excepcionais, também áreas como a baixa de Nova Iorque ou os arranha-céus de Tokyo parecem pobres e vazios.
O estilo visual do jogo encontra-se algures entre
o realista e o animé, dando-lhe um aspecto único.
Mas isto é, no fundo, um jogo de luta, e o cenário acaba por ser o que menos interessa. O espectáculo visual está no detalhe de Ryu e da incrível colecção de armas que vai construindo ao longo do jogo; os inimigos, variados, detalhados, e animados impecavelmente. As batalhas são um prazer de jogar e ver, rápidas e ferozes. Lâminas brilham e faiscam, braços, pernas e cabeças voam para todos os lados em jorros de sangue.
As lâminas de mãos e pés são uma das novas adições ao
repertório de Ryu, e tornam o combate ainda mais próximo
que anteriormente; com elas fazem-se alguns
dos combos mais longos do jogo.
Cada arma quase que torna Ryu numa personagem completamente nova, tal é a quantidade de golpes e combinações para desbloquear. Cada uma tem características diferentes, e só os mais adeptos conseguirão dominar todas. Os inimigos não dão tréguas, sendo possivelmente os mais agressivos de sempre -- o bloqueio e o esquivar são aqui essenciais para a sobrevivência, tal como o conhecer os padrões de ataque dos inimigos, das suas animações, e o dominar de um bom repertório de movimentos deRyu, para saber usar sempre o mais adequado para a situação.
A nódoa deste genial sistema de combate é mesmo a câmara, que era por vezes inconveniente no anterior Ninja Gaiden, mas aqui é francamente um estorvo, fonte de muita frustração e mortes injustas. O jogo não perdoa incompetência, mas premeia esforço e a prática -- sentimos realmente que ficamos melhores e mais adeptos ao combate -- mas é imperdoável que parte dessa perícia tenha a ver com aprender a compensar as deficiências dacamera quase constantemente. Este é um ponto importante porque Ninja Gaiden II tem um dos melhores sistemas de combate de sempre, aliado aos inimigos mais desafiantes de sempre, mas estes elementos são desperdiçados devido àcâmara. Isto também torna algumas secções de plataformas (raras) mais frustrantes do que deveriam ser, mas ainda assim, nesta área pelo menos, este jogo está à frente do antecessor.
Nova Iorque desaponta devido à sua esterilidade. A cidade
inspirada em Veneza também tem as ruas e canais vazios,
mas as cores claras e bonita arquitectura fazem dela um
local bem mais agradável para esquartejar as forças do mal.
Ficamos, portanto, com um jogo difícil -- por vezes mesmo injusto -- que não obstante é uma das experiências de acção mais satisfatórias desta geração. Não é, infelizmente, um passo à frente em relação a Ninja Gaiden Black, mas é um jogo de acção sólido, competente, desafiante, e com muito espectáculo. Pode ser difícil chegar lá, mas quando devastamos uma dúzia de inimigos em poucos segundos, e nos encontramos de pé no meio de um campo de batalha com corpos amputados em todo o nosso redor, sem termos um único arranhão, é impossível não sentir um pouco daquela alegria adolescente com que assistíamos aos filmes deninjas à tantos anos.
Nota final: 8/10 -- Recomendado