Grand Theft Auto 4 já chegou ao mercado. Há uma semana a ansiedade estava instalada naqueles que mal podiam esperar por deitar as mãos no novo episódio da popular e polémica série da Rockstar. Nos fóruns o fervilhar pelo novo GTA era notório: dava-se conta das primeiras impressões de parte da imprensa que não evitava mostrar aos mundos o mapa de Liberty City, certos jogadores contavam impressões iniciais a partir de cópias pouco lícitas, mas a cadência de conclusões máximas no final das primeiras análises formava um estrondo valente.
A série que tanto se demarcou pela imensidão de cenários sujeitos a livre exploração para o bem e mal, com chamadas de atenção e desafios dos cáusticos do costume vindos daqueles que gostam de apontar os videojogos como parte da raíz do mal nos mais novos, estaria a provocar uma transformação naquilo que até hoje a indústria dos jogos deu a conhecer.
Numa fase tão marcada pela segregação dos jogadores entre casuais, adeptos de experiências simples e facilitadas, e aqueles mais hardcore, ou seja, veteranos das boas aventuras de acção apetrechadas de quadros cinematográficos, e pormenores gráficos de relevo, GTA 4 propõe-se como o último grande nemesis do Wii Sports, contrariando a corrente praticada pela Nintendo Wii. Depois de GTA 4 o mundo de entretenimento interactivo fica dividido: milhares de jogadores correm às lojas para comprar a balança de Wii Fit, pondo avós, tios e sobrinhos à volta do ecrã, e outros tantos milhares esgotam as cópias da recente aventura de Nico Bellic, um emigrante russo de rosto vertical à procura da fortuna no continente americano, a todo o custo.
Dan Houser, vice presidente da Rockstar e co-argumentista de GTA 4, numa entrevista ao New York Entertainemt não facilita quando abordado pelas mudanças na indústria desde o último GTA: que se danem todas estas coisas à volta dos jogos casuais. Eu acho que as pessoas ainda querem jogos que sejam arrebatadores. A Wii está a fazer algo totalmente diferente, o que é fantástico, mas nós vamos provar que ainda há pessoas que gostam de entretenimento noutros moldes, em que os jogos podem oferecer uma narrativa capaz de desafiar o cinema.
E quem está a jogar GTA 4 sente de facto que o jogo está a dar um pulo imenso em tudo aquilo que até hoje é conhecido. A narrativa mais versátil e acompanhada de muitas relações de poder e meandros obscuros, do submundo dos negócios ilícitos, do crime e castigo para os traidores, deixa em cena inúmeros aspectos das actuações dos grandes chefes do crime que vivem e controlam arredores de cidades como Nova Iorque ou New Jersey, aqui representada de Liberty City, também o sonho para Nico Bellic, que logo de início lhe aponta a face mais agreste, bem distante das expectativas que o primo Roman lhe prometera.
A violência forma-se inevitavelmente, recuperando na ponte com o cinema filmes de gansters ao jeito de Goodfellas ou séries como Sopranos e mesmo aí David Chase e Martin Scorcese representaram o aspecto mais dramático dos negócios entre mafiosos onde o dinheiro e traição servem de pretextos para mais uma morte fria e normal.
Perante um quadro similar em GTA4, Dan Houser qualifica a violência como algo inevitável, podendo existir em jogos que culturalmente se situem ao lado de filmes e livros que vamos lendo. Para o co-argumentista “não há nada no jogo que não seja visto num programa televisivo ou num filme centenas de vezes”.
GTA 4 é colossal na exploração, assumindo uma liberdade e interactividade nunca antes vistas e com o papel narrativo mais trabalhado, diante de uma personagem central persuasiva e mergulhada nos meandros mais obscuros de uma cidade digitalmente estranha, a Rockstar expande novamente as fundações da indústria.
Escolhi esta cena do penúltimo episódio da última série dos Sopranos por ela traduzir muito daquilo que é a essencia de GTA 4. O que temos neste pedaço é um ajuste de contas, brilhantemente realizado por Chase, e que finda com a morte de um dos grandes de Tony Soprano. Vários elementos que apresenta GTA 4 estão aqui representados; a saída do bar de strip Bada Bing, a música rádio no interior do carro onde viaja Sílvio e o colega de equipa (quando a câmara se aproxima do carro ou vê no interior, escuta-se sempre a música), a embuscada, o tiroteio, a fuga dos criminosos a alta velocidade espalhando o caos no acesso à estrada, transeuntes assustados e atónitos e uma striper com as mamas ao léu. Todos vêem o motociclista que é apanhado naquele instante ser atropelado por um veículo que vem mesmo atrás sem tempo para desviar.