ENTRETENIMENTO INTERACTIVO NA SALA DE ESTAR
3 de maio, 2008 05:14 PM por Vítor Alexandre
Foi há pouco mais de um ano que a
Sony lançou em território europeu a
Playstation 3, a consola da nova geração destinada a substituir a muito bem sucedida
PS2 e a enfrentar a concorrência gerada pela
Nintendo Wii e
Xbox 360.
Antes de Março de 2007 já a
PS3 fora lançada no mercado norte-americano e japonês, mas foi no continente europeu que o mercado concorrencial nas consolas ficou perfeito, podendo todos os jogadores do mundo votar a partir dessa altura.
Um ano de presença no velho continente e sabendo-se que a oferta e condições de equilíbrio são mutáveis ao longo do tempo, através dos ciclos de produção, adesão das comunidades e oferta concorrencial, cumpre inquirir se a máquina do coração de Kutaragi e Phill Harison (agora Atari CEO) tem condições para levantar voo ainda este ano, embrulhando-se a fundo na guerra das consolas depois de um começo algo pálido. E será que em Portugal os jogadores nacionais vão mais uma vez apostar na marca que emergiu em Portugal como sinónimo de entretenimento audiovisual interactivo?
As condições de entrada no mercado da
PS3 são muito diferentes do percurso de nascimento da antecessora
PS2. Enquanto que em 99/00 a
Sega estrebuchava no mercado, a
Xbox estava por lançar e a Nintendo tinha na
GameCube uma peça tecnologicamente evoluída sem preocupações do vídeo digital (
DVD), em 2005 a
Microsoft baralhou as regras e numa regra de antecipação perante concorrência matou a
Xbox, lançando no final do ano, a estafeta da nova geração, devolvendo aos adversários a necessidade de reequacionamento do mercado. Para a
Nintendo a adaptação fez-se com risco, mas com uma
GameCube moribunda a fase de transição não poderia ser melhor. No caso da
Sony a situação foi diferente: a
PS2 era a consola mais vendida, solidificando as vendas, numa posição determinada (graças a títulos vocacionados para uma audiência
softcore como
Buzz e
Singstar) e ter uma concorrente interna por perto poderia causar um efeito de anulação simultânea.
Os primeiros meses de mercado da
PS3 foram algo custosos, deixando perceber que a
Sony não estava totalmente preparada para assumir a nova geração. Ainda assim, da lista de jogos de lançamento,
Resistance e
Motorstorm posicionaram-se como os grandes cabeças de cartaz; jogos de qualidade indiscutível (
Ninja Gaiden Black adaptado ao formato da nova geração num excelente trabalho da Tecmo só verdadeiramente testemunhado quando visto a correr numa televisão de alta definição), produtos originais, refrescando géneros, numa colocação à prova das virtudes da silenciosa consola que corre
Blu-Ray e tem no sistema de ligação à rede (a
PS Network), gratuito e sem mensalidades, um balaústre indiscutível (os jogadores querem sempre pagar o menos possível) perante a mais directa concorrente.
A Sony passou a primavera e verão do ano passado praticamente à custa do cabaz de lançamento e também ao arrepio de alguns jogos originais lançados para a PSStore como Calling All Cars, Flow e Super Stardust HD.

O final do ano foi em boa parte compensador para quem nessa altura aproveitou a descida do preço da consola (embora sem a retro-compatibilidade e com um disco mais exíguo, nos 40 GB) e os vários
packs em presença com ofertas bem tentadoras.
Uncharted,
Heavenly Sword e
Ratchet & Clank revitalizaram as prateleiras em matéria de exclusivos e contribuíram para um Natal
Sony bem mais proveitoso. As aventuras de
Ratchet e do seu amigo robô perduram na boa memória dos fãs das plataformas, mas a atenção incidiu particularmente sobre a perseguição ao tesouro
El Dorado, numa aventura incontornável, e que colheu influências de jogos como
Tomb Raider,
Gears of War e
Resident Evil 4.
Heavenly Sword equiparou-se a
God of War e mesmo sem alcançar o nível de produção dos estúdios da
Sony em
Santa Monica é uma boa rampa para a
Team Ninja que há uns poucos anos atravessou o limiar da sobrevivência.
Mas nem só de exclusivos consegue sobreviver uma consola. Os territórios comuns a partilhar são igualmente fonte de sucesso e de visibilidade para as máquinas que os conquistam. Com a Nintendo Wii num segmento de interactividade > gráficos, sobrou para a PS3 e 360 uma série de multi-plataformas a talhe de evolução da indústria como Call of Duty 4, Stranglehold, Pro Evolution Soccer 2008 e Assassin’s Creed.

Pondo à parte a questão de qual a versão que apresenta melhor e mais cuidado grafismo, a
Microsoft deixou de estar só na recepção de alguns títulos, anteriormente exclusivos, como sucedera com
Lost Planet. Na sua maioria o jogador escolhe uma versão em função da consola correspondente que pretende adquirir, sendo isso particularmente visível no final do ano passado e agora em 2008, como sucedeu com
Devil May Cry 4, uma das melhores referências da
Capcom para a última geração. Formam-se
bundles apetecíveis, reequacionam-se preços (mais acessíveis à bolsa do comum jogador), numa oferta mais similar e homogénea. Só a
Nintendo Wii conserva a distancia no tipo de oferta proporcionada. Embora os 250 euros exigidos pela consola com o
Wii Sports sejam cada vez menos um factor de desiquilíbrio a perder importância pela poupança económica, a introdução do
Wii Fit, num apelo renovado a toda a família, despertou a onda
Nintendo.
A importância dos blockbusters
As expectativas mais certeiras apontam para um crescimento considerável da quota de mercado da PS3 até ao final do ano. Depois de um ano incerto e ultrapassado à custa de novas franchises, 2008 é o ano dos repetentes; marcas de sucesso como Gran Turismo, agora na quinta edição para os apaixonados por desportos motorizados e Metal Gear Solid 4, a obra mestra de Hideo Kojima. São títulos que por si movem legiões de adeptos e apelam ao renascimento de uma consola que para muitos tinha até aqui poucos factores de atracção.
O lançamento de
Gran Turismo 5 Prologue, sob a forma física (disco
blu-ray), ou conteúdo descarregável evidenciou todo um esforço da
Sony para projectar a marca
PS3. O assalto às lojas no dia 23 de Março continuado nessa semana da Páscoa representou resultados extremamente favoráveis, ampliando no Reino Unido o volume de vendas da
PS3 para os 14% (incrementando o bom momento), alcançando o pico de vendas nessa semana.
Até porque não se pode esquecer o apelo da confiança que um jogo de Kazunori Yamauchi representa. É um jogo de massas, sempre apelativo a quem nutre particular admiração por simuladores de automóveis e neste caso sublinhado por uma série de atractivos como a visão interior, as corridas em rede e a presença de Ferraris que apelam até ao jogador mais casual.
Metal Gear Solid 4 será o próximo grande blockbuster a proteger pela Sony. Muito se diz que este será o ponto final das aventuras de Solid Snake e que Kojima está de partida para outras iniciativas e projectos. Mas não será tudo uma forma para cultivar o interesse pelo jogo “final” à medida que se adensam vídeos e imagens de Snake, uma das personagens mais seguidas pela comunidade de jogadores? Apesar disso, o jeito ímpar de Kojima em contar um bom filme jogável sob a forma de videojogo está todo lá. A Sony até antecipou o interesse dos jogadores e há pouco mais de uma semana lançou a beta multiplayer de Metal Gear Online em todas as regiões. O resultado está à vista. Os titulares da consola compareceram à chamada e levaram à exaustão os servidores, algo que obrigou a Konami a alargar o período de inscrição na beta. Apesar de severas dificuldades no descarregamento do primeiro update, jogadores de todo o mundo labutam agora pelos mapas de Metal Gear Online.
Sem contar com os jogos dirigidos ao público menos hardcore como Buzz ou Singstar, até ao final do ano são ainda esperados Little Big Planet, o jogo que promete revolucionar a componente criativa multiplayer, e o espaço de convívio Home, a plataforma ponto de encontro e entretenimento virtual que promete revolucionar as relações em rede.
Segue com a alta definição
Aquando da chegada da PS3 ao mercado o HD-DVD ainda disputava o formato da alta definição com o Blu-Ray. A batalha pelo formato vencedor da alta definição foi uma constante ao longo do ano passado, mas o apoio de alguns grandes estúdios norte-americanos da indústria cinematográfica foi vital para esmorecer as intenções do HD-DVD cada vez mais atado, até que em Março último a Toshiba anunciou o fim da produção do formato.
Para a
Sony não deixa de ser um momento de particular regozijo. Apesar de caros e com uma presença ainda dominante do
DVD no mercado, o disco de
blu-ray é determinante para alargar as fronteiras da
PS3 para além do entretenimento interactivo. O leitor incorporado, relativamente acessível perante os demais, é ponto de interesse suplementar para os jogadores à medida que vão trocando os televisores antigos pelos modernos
LCD de alta definição. As mais de 500 mil cópias de
007 Casino Royale entregues aos compradores da
PS3 no
day one puseram o sistema em prática; a alta definição faz realmente a diferença.

Ponderado mais de um ano de
PS3 no mercado, 2008 tem tudo para ser mais sorridente, mais competitivo e com uma oferta mais diversificada. As dificuldades iniciais de penetração no mercado deram lugar a uma comunidade de apoio e suporte às propostas mais sonantes, especialmente na Europa e no continente norte-americano. O Japão persiste como um caso à parte: a
Nintendo Wii é detentora do mercado e prevê-se que o apoio aos jogos de treino mental e físico seja uma constante. Apesar disso a consola da
Sony não capitula a oriente e mesmo com parcos números de vendas está preparada para recuperar a qualquer altura, num mercado que já lhe foi mais favorável.
Até à chegada de Uncharted havia quem pusesse em causa o investimento realizado na PS3 durante a fase de lançamento, em parte devido à falta de boas opções de software. Mas é no percurso feito até hoje, a semana de estreia do furacão que está a ser GTA 4, que se vislumbra todo um trabalho de casa a frutificar, condizente com o interesse dos jogadores e daqueles que apostaram no lançamento, podendo estes até afirmar que conseguem correr boa parte dos originais PS2.