GRAN TURISMO 5 PROLOGUE - O RENASCER DO ESPíRITO AUTOMóVEL
13 de abril, 2008 05:42 PM por Vítor Alexandre
Dez anos depois da estreia de
Gran Turismo na
Playstation e com mais de 50 milhões de unidades vendidas em todo o mundo,
Kazunori Yamauchi, produtor e chefe da
Polyphony Digital, continua a viver a sua paixão pelos automóveis como sempre; testando dezenas de carros e cumprindo quilómetros nas principais pistas de todo o mundo.
Gran Turismo é um estaleiro de sonhos, em constante movimentação, pleno de ambição pela condução. O prémio mais recente pelo trabalho desenvolvido ao longo de uma década foi a parceria com a
Nissan para desenvolver o dispositivo multifunções do
GT-R, apresentado no salão de
Tóquio em Outubro de 2007.
Há muito tempo, talvez há mais de quinze anos, nos intervalos da Fórmula 1( quando cabia à RTP, em serviço público, propiciar magníficos plácidos domingos – pós almoço - de desporto automóvel da máxima estirpe e em directo) costumava passar um spot publicitário à Nissan que sempre achei de uma persuasão extrema a todos os níveis. Os intervalos são quase sempre uma maçada, é certo, mas naquela altura não me importava muito com isso porque sabia que esse curto espaço de tempo ia afagar a minha curiosidade: na verdade ia ver algo que me deixava uma boa sensação, um prazer descrito de uma forma pouco habitual.
Depois, os intervalos da Fórmula 1 eram quase sempre ocupados com mensagens alusivas aos automóveis ou então a elementos satélite como marcas de pneus, produtos de utilização para o carro, óleos, e com isto me ocorre também um da Shell, o spot do Xau Ângelo! Xau Romano!, o último um rapazito italiano que vindo da escola com os seus comparsas se aproxima da bomba de gasolina privativa da Ferrari, cumprimentando o gasolineiro, no prolongamento da tarde, desejoso por ver, com sorriso de ponta a ponta, os belos Ferrari 355 escalarem na bomba para abastecimento de combustível.
Nissan GT-R no estreito circuito montado em pleno coração de Londres
Nesta altura estaríamos em 1993 ou 1994, mas lembro-me que o anúncio que mais gostava de ver era o da Nissan. Começava quando o ecrã da televisão subitamente escurecia, silencioso e, progressivamente, um ritmo musical quase imperceptível acompanhava planos muito curtos do interior do potente 300 ZX bi-turbo sem nunca exibir imagens gerais, aproximando-se da percepção de um cego que com a sua mão percorre o contorno dos objectos.
Era um anúncio de uma persuasão extrema e só soube que se tratava do 300 ZX por indicação do meu irmão que também assistia às corridas e ajudava-me a descortinar algumas dúvidas. Mas voltando ao cerne do anúncio, depois da suavidade inicial em paralelo com o couro dos assentos, o ponteiro da velocidade pulsava para velocidades altas, em aceleradelas despertantes, instalando-se de seguida o roncar grosso do motor, permanente, num claro ataque ao asfalto enquanto uma tempestade se formava, com relâmpagos, visível a partir do reflexo causado pela pintura negra polida. Gotas de água, num realismo ímpar, aglutinavam-se na carroçaria. A objectiva percorria depois o exterior e seguia pelas laterais, pelos farolins, cobrindo os espelhos, o capôt e o pára-brisas, abraçando o carro, até estacionar junto do logo da marca erguendo-o, para culminar com a seguinte deixa: “Nissan, o renascer do espírito automóvel”.
O anúncio não durava mais de 35 a 40 segundos, mas integrou a categoria dos inesquecíveis, devendo figurar nas sessões de publicidade de grande êxito e sabe-se que foi vencedor de prémios internacionais. Fiquei espantado quando pouco tempo depois visitei a Exponor (na altura era em Matosinhos) – salão automóvel de Portugal – e vi finalmente o 300 ZX bi-turbo à minha frente; o carro de construção nipónica que me deixava estarrecido quando visto naquele curto espaço publicitário sem nunca lhe adivinhar o todo.
Kazunori Yamauchi
Este é muito possivelmente o cerne da paixão automóvel, o gosto pela engenharia complexa que se esconde debaixo do capôt de um carro, a perseguição aos fantásticos carros desportivos, as subtilezas dos veículos, os ângulos, observação de fotografias, contemplando ao vivo ou testando em tempo real grandes automóveis, sabendo como quem domina a tabuada qual a potência e registos das grandes máquinas.
Kazunori Yamauchi é um apaixonado pelos automóveis e tem na sua garagem pessoal relíquias de grandes marcas como a Porsche e Ferrari. Até o raro Ford GT faz parte da sua garagem pessoal. A integração do director da Polyphony Digital (antiga Polys Entertainment) na realidade das pistas de alta velocidade, percorrendo todo o género de carros desde clássicos a gama média alta, desportivos e viaturas de competição, promove um conhecimento de causa que poucos produtores no meio da indústria dos jogos podem ostentar.
A criação da série Gran Turismo e todo o desenvolvimento que lhe está associado revela quiçá uma paixão maior pelos automóveis que amor aos videojogos, embora ambas estejam irremediavelmente atadas. O lançamento de Gran Turismo em 1997 evidenciou um quase incomparável grau de detalhe e modelização de tantos veículos famosos, concebidos e estudados individualmente, reflexo de uma dedicação extrema da equipa (que aquando do desenvolvimento do GT4 tinha 80 elementos).
Estúdios da Polyphony Digital Inc.
Posteriores edições da série confirmaram esse estatuto do carro como elemento central, objecto de culto e admiração fazendo de cada nova entrada um autêntico salão recheado de novidades. Possivelmente o efeito visual terá sido levado a um extremo superior ao desenvolvimento da dinâmica, física e comportamento dos veículos em pista embora motores dinâmicos e de efeitos gráficos sejam por vezes concebidos de raíz. Mas é no efeito eye-candy, sobretudo as repetições das corridas, rivalizáveis com transmissões televisivas da Eurosport, que os carros exibem um grau de detalhe e integração nas pistas verdadeiramente único. Fica a nú todo o “corpus” da competição automóvel.
Big Boss no posto de trabalho
É difícil esconder que não há uma aposição do carimbo de Kazunori em cada novo jogo da série Gran Turismo. Até se irá mais além, ao encontro de uma incursão de autor: a expressão e exteriorização de uma devoção pelos automóveis. Gran Turismo é a concretização de um sonho, o esforço por tornar interactiva a experiência de conduzir um veículo a quatro rodas na tal direcção, da simulação, que Kazunori não hesita em classificar como forma de aprendizagem na vida real.
O esforço empregue pela equipa de Kazunori que vai ao terreno, testa, contacta e troca impressões com produtores de grandes marcas (essencialmente pela localização) frutificou recentemente numa colaboração sem precedentes com a Nissan. A forma dessa iniciativa foi o desenvolvimento do computador de bordo do recém estreado Nissan GT-R, por muitos já apelidado de Ferrari do oriente em virtude das grandes especificações. A Nissan considera que este é o primeiro dispositivo que permite ao carro transmitir para o piloto todas as condições do veículo.
Et voilá! Eis o interior do Nissan GT-R com o dispositivo multifunções colocado numa posição central facultando todo o tipo de informações ao piloto. Por enquanto é o carro de fábrica que detém o melhor tempo no circuito de Nurburgring Nordschleife
Há uma imensidão de tópicos e info que pode ser recolhida numa observação do computador de bordo, sendo que para a Polyphony este tipo de estruturas de informação é utilizado normalmente nos seus jogos. Esta bem pode ser a primeira vez em que a tecnologia de Gran Turismo e de um jogo de vídeo é empregue numa viatura de “carne e osso”.
Alguns podem considerar que existe uma certa crise na área das simulações de automóveis, mais afectas a um nicho e por isso menos compensatórios os avultados investimentos, mas quando chega ao mercado um novo Gran Turismo, “o simulador” da vida de Kazunori Yamauchi que já vendeu mais de 50 milhões de unidades em todo o mundo em praticamente dez anos de existência, há sempre algo de novo e fascinante para descobrir, bem mais do que os olhos estão dispostos a comer.
Audi R8 antes de arrancar para o asfalto. Engenheiros, técnicos, mecânicos, piloto e público contemplam a máquina
Agarrado ao cargo por devoção, Kazunori não esconde que o trabalho está longe de concluído. Ainda há muito para acrescentar cada vez que um novo sistema chega aos mercado; muitas ideias adquirem viabilidade. E no intervalo da próxima entrega bem podia a Nissan editar uma nova publicidade, agora para a nova coqueluche, o GT-R. Mas, espera lá, Gran Turismo 5 Prologue já passa na TV.
Outros elementos do especial
yo, Mandas, obrigado!