

Por muito triste que pareça, os videojogos nunca foram destinados a serem considerados arte tal como livros, pinturas ou filmes, mas isso nunca impediu, no entanto, as pessoas de criarem os seus jogos de uma forma artística e que possa ser observada pelo público como tal, e para isso temos bons exemplos como o Another World (Out of this World para os EUA) de Eric Chahi e ICO de Fumito Ueda (este ultimo sendo inspirado fortemente na referida obra de Eric Chahi). Ambos foram jogos que trouxeram uma experiência e sensação de imersividade única através da combinação de músicas e sons ambientais e cenários realistas. De um certo modo, há quem considere este tipo de jogos como “jogos de ambiente” (ambient gaming).

Em 2006, um músico e desenhador de vídeo jogos sueco chamado Nicklas Nygren (Nifflas) criou um jogo indie (freeware) que baseava-se nos conceitos e princípios que tornaram ICO e Another World tão tocantes, esse jogo pode muito bem ser considerado por muitos como um dos melhores jogos de sempre para PC (e na comunidade de jogos freeware) e o seu nome é Knytt (pronuncia-se “knight”).

A história de Knytt é relativamente simples, nós encaramos o papel de uma criatura cuja raça chama-se Knytt, que é capturado por um extraterrestre, mas ao colidirem com um meteoro e efectuarem uma aterragem de emergência num estranho planeta, compete-nos a nós arranjar várias peças que se encontram espalhadas pelo planeta para podermos regressar ao nosso planeta.

Muito simples não é? Certamente que sim e a jogabilidade segue a mesma simplicidade. Como Knytt, tudo o que podemos fazer é saltar e trepar paredes, apenas isso e mais nada. O objectivo deste jogo é levar o jogador a viajar por uma vasto planeta em busca daquilo que procura e sentir durante as suas travessias o mundo em que viaja, não só isso como também o espírito aventureiro que reside dentro dele.

As partes gráficas e sonoras cumprem também um papel muito importante nesse objectivo, pois a simplicidade dos gráficos e a sensação atmosférica que lhe é embutida através do uso de música e efeitos sonoros ambientais permite ao jogador sentir que está ali, que está a fazer aquilo e que está a sentir-se feliz por se encontrar rodeado por tanta beleza ambiental. O estilo artístico do jogo é deveras único e agradável ao olhar.

Ocasionalmente, o jogo apresenta-nos também alguns inimigos, o que faz sentido pois uma aventura não é só viajar, mas também sentir e encarar o perigo. O mapa encontra-se ausente neste jogo, mas com um mapa explorar um mundo como este não faria sentido nenhum e deixaria de ser emocionante e divertido, pois já saberíamos por onde ir e que locais ainda não foram visitados, e aqui tudo deve ser descoberto e viajado através da nossa própria memória e orientação, nós podemos no entanto usar uma luz que nos aponta a direcção em que se encontram os objectos que temos de recolher, o que torna tudo ainda mais agradável.
É impossível falar mais sobre Knytt, é um jogo que não pode ser descrito com facilidade e pode apenas ser reconhecido através da experiência. Mas uma coisa é certa, ele é simples, é belo, é divertido, é mágico e é tudo isso que o torna num jogo tão bom e artístico. É uma pintura pintada numa tela de ouro e com tintas de diamantes e cristais. Uma pintura que nos quer fazer querer viajar mais e contemplar mais e surpreendentemente é um jogo sem qualquer falha, não é perfeito obviamente, mas a verdade é que não encontrei algo nele que fosse desagradável para mim, mas enfim, tal como tudo no mundo a opinião humana é inteiramente subjectiva, e isso aplica-se não só à arte como também aos vídeo jogos.
Numa nota e opinião final, eu gostaria de dizer que isto é um daqueles jogos que merece um lugar em serviços de distribuição digital das consolas da sétima geração (Wii Software, PSN, e XBLA). Se algo maravilhoso como N+ o mereceu, não existe razão para Knytt
10/10 -- Recomendado
Suda 51 sempre referiu a obra de Eric Chahi como a sua maior fonte de inspiração para o "visual" dos seus jogos. É mesmo como dizes, uma pena que os jogos artisticos como os dele sejam tão mal compreendidos. :\