BURNOUT PARADISE - PS3 (VERSãO TESTADA) E XBOX 360
1 de abril, 2008 10:16 AM por Vítor Alexandre
Uma cidade deliciosamente aberta à exploração furiosa por onde fluem, nas artérias e largas faixas de rodagem, serpenteando o tráfego citadino, veículos rápidos e letais. Só o acidente estrondoso e revisto em câmara branda trava a marcha imparável.
Há quem considere os jogos de automóveis divididos em dois grupos essenciais: de um lado os jogos realistas, também conhecidos como simuladores, destacando-se Forza Motorsport e Gran Turismo como expoentes do género e na outra banda, a categoria dos jogos arcade, abertos ao divertimento imediato e sem grandes constrangimentos técnicos tendo em Sega Rally e Motorstorm as recentes investidas. Mesmo que alguns produtores apontem para uma crise na expansão do mercado dos simuladores (para alguns a vertente realista agrada a um nicho) é no segmento dos jogos acessíveis que se registam as maiores novidades e Burnout Paradise, inscrevendo-se (desde sempre) nessa categoria, chega ao mercado da nova geração como um título que praticamente reinventa a série.
Paradise é sub-título de Burnout. Para os mais atentos o que temos em primeiro lugar é uma nova investida da Criterion (estúdio adquirido pela EA há uns poucos anos e que já provou precisamente em Burnout 3: Takedown ser capaz de inundar o mercado com grandes surpresas). O aspecto menos surpreendente, embora esteja conseguido com a determinação habitual, é a essencia Burnout, ou seja, recolher um carro à disposição e partir para a estrada, superando adversários, evitando acidentes (provocando-os quando tiver de ser), em plena acumulação de boost para o gastar depois nas rectas e curvas rápidas, percorridas a velocidades super-sónicas, nas largas vias de Paradise.
Mas quando o sub-título aponta para o paraíso ao som do tema clássico Paradise City da banda rock norte-americana Guns 'N Roses, numa total abertura ao american lifestyle, mercado primordial da Electronic Arts, então algo de grandioso está por descortinar.
Porn!
Para este jogo a Criterion não poupou nos recursos. Refazendo o jogo de raiz, a equipa produtora concebeu uma cidade inteiramente original, em letras hollywoodescas, com toda a central square, estradas costeiras, arredores montanhosos e viadutos; uma criação verdadeiramente colossal de dimensão só compreensível a partir das imagens satélite tipo google earth. São mais de 300 quilómetros de estrada totalmente exploráveis num ambiente aberto e de uma caracterização gráfica ao nível do que podemos ver, por exemplo, em PGR4.
Paradise City tem os seus pontos e locais de interesse previamente anunciados, como o observatório, o estádio de baseball da equipa local, o porto naval, verdadeiros postais que fornecem pontos de referência importantes para balizar geograficamente a cidade, mas é a partir do esquema de abertura, que possibilita uma viagem sossegada de uma ponta à outra, que os desafios e progressão adquirem outra notoriedade. Desde logo porque desapareceram os menus de provas e catálogo de eventos que se precipitam cada vez que há um evento.
Em Burnout Paradise o jogador está sempre em cima do acontecimento. Os mais de 120 eventos estão distribuídos pelas incontáveis intersecções da cidade e ao passar por uma delas há um tipo de prova que pode ser activado se pressionados os botões R2 e L2 ao mesmo tempo. De imediato ocorre um curtíssimo loading, que deixa ver o nosso carro ganhado fôlego para o arranque (depois de um briefing necessário), e somos lançados para mais uma corrida louca. Esta estrutura de jogo é agradável e mantém o jogador no activo, em permanente desafio, e quando não existe vontade para ganhar provas sempre se pode viajar tranquilamente pela cidade, contemplando o detalhe dos edifícios, estruturas e pontes que atravessam Paradise.
Carros musculados lembram o Ford GT, o Dodge e o Ford Mustang. Todos exibem um roncar e engrenagem de mudanças avassalador
A progressão do modo a solo faz-se principalmente pela obtenção de licenças, sendo que para subir de categoria (ter uma carta melhor que permite o acesso a veículos mais rápidos) é preciso acumular um conjunto de vitórias nos eventos. A maioria das provas não diverge por aí além das que existem nos jogos anteriores, mas vão encontrar as tradicionais corridas do ponto X a Y; as road rage para abalroar os adversários em quantidade previamente determinada e crescente; marked man, categoria interessante que significa percorrer uma área escapando às terríveis investidas dos adversários; stunt run para realizar saltos e acrobacias vistosas, acumulando pontos de estilo, e a sempre implacável burning route que nos dá um tempo limite para fazer 5 ou 6 milhas de pé na tábua. Cada género de evento é assinalado no mapa de Paradise com uma cor específica permitindo perceber o que há a fazer quando se aborda o mapa.
Na prática, a estrutura aberta do jogo, de permanente presença na estrada, tem efeitos positivos quanto à realização dos eventos, já que isso possibilita tomar atalhos e escolher outros percursos (alternativos ou secretos) para chegar primeiro, sem o espartilho das pistas fechadas. Mas a cidade é tão vasta e densa em vias de acesso que é particularmente difícil memorizar os percursos, especialmente quando se viaja a velocidades desenfreadas, estando ainda grande parte da atenção no tráfego ascendente e descendente. Mesmo assim o computador dá uma ajuda indispensável e orienta o jogador para o melhor percurso dando sinal de esquerda ou direita nos cruzamentos, para as avenidas a tomar, mas ora porque o jogador opta por um percurso alternativo, ora porque o carro não cortou à esquerda quando devia tê-lo feito, pode ocorrer uma sensação de desorientação para atingir a meta e não há possibilidade de recomeçar a corrida. Pode ser frustrante perder uma corrida porque seguimos em frente quando o GPS pedia esquerda, mas isso é sintomático do novo ímpeto do jogo: encontrar forma através de mais velocidade e risco, para num percurso alternativo superar a concorrência. Certo é que todas as estradas vão dar a Roma.
Há carros para todos os gostos e formatos como estes clássicos que ainda passeiam por Cuba
A inteligência artificial está melhorada e à medida que se alarga a progressão no jogo os adversários ficam mais duros e ríspidos, tentando a todo o custo travar a marcha do jogador e até mesmo dos outros contendores, envolvendo-se em acidentes brutais à nossa frente criando uma nuvem de fumo, pó, estilhaços e carcaças de ferro em pleno vôo. A física de jogo também está melhor. Os contactos e raspanços destabilizam o veículo e mesmo os ruídos do metal a riscar incrementam o ambiente de cortar à faca. A caracterização e dinâmica dos acidentes, revistos quase sempre em câmara lenta, atingem em Paradise um pico, uma imagem detalhada de destruição e espectáculo (como os americanos muito gostam), só faltando ver os carros pegarem fogo. Os acidentes fatais e chocantes sempre foram imagem de marca de Burnout, mas nesta edição a produção esmerou-se e foi mais além na descrição gráfica do impacto.
O aspecto mais chocante é ver e ouvir em movimento lento toda a estrutura de metal do veículo contorcer-se, esmagando-se na brutalidade do impacto, enquanto o carro perde rodas, se amolga e larga uma série de partículas e detritos pela estrada, numa série de batidas impressionantes e capotanços até estabilizar, quase imperceptível, todo desfeito, num sítio qualquer da estrada. Este aspecto chocante, tal o realismo empregue na descrição dos acidentes, corta pela positiva com a velocidade vertiginosa assumida em tantas vias, fugindo de um embate previsível, mas com adrenalina alargada cada vez que o acidente fica adiado.
Parece o Ford GT num longo drift. Uso do efeito motion blur com mestria
Aspecto inovador de
Paradise é a possibilidade de o jogador, em plena competição, encher o veículo de
boost numa das muitas bombas de abastecimento espalhadas pela cidade e até reparar o veículo numa oficina à beira da estrada. Para mudarem de carro e usarem veículos novos terão de se dirigir a uma sucata, as
Junk Yards. São mais de 75 carros a desbloquear, sendo muitos deles caços pela cidade, com recurso ao ablroamento, quando passam pelo nosso veículo a pedir picanço. Outros veículos são entregues quando é ganha uma corrida e outros com a obtenção de uma licença mais elevada. Como é habitual não há aqui carros oficiais, das grandes marcas, mas pela silhueta e desenho de alguns as comparações são inevitáveis para quem está atento à produção de automóveis. Os carros variam desde modelos mais desportivos e esguios, carrinhas pesadas, clássicos, muscle, carros do tipo
Nascar e os mais rápidos, parecidos com os
Fórmula 1.

DJ Atomika - speaker de serviço
Quem conduz tem por hábito ouvir música ou ter pelo menos uma estação de rádio sintonizada para alguma animação. Não que haja falta disso nas estradas de Paradise, mas o préstimo do DJ Atomika, o homem da rádio sempre bem humorado e disposto a comentar as regras e headlines de Paradise City, é bem-vindo e funde-se bem com a playlist que a Criterion escalonou para os nossos ouvidos. Temas osciláveis entre rock e música electrónica (entre outros géneros musicais), são mais de 50 batidas a reproduzir e quase sempre encaixam na passada rápida do jogo. Então quando passa Rockstar Remix dos N.E.R.D é mais uma luz de nitro que se acende, pronto a queimar. Aumentem o volume do vosso televisor de alta-definição por favor! Na imagem os Guns 'N Roses que emprestaram o seu tema Paradise City como sonoridade base do jogo
Paradise não deixou escapar as ligações em rede para grandes competições com jogadores de todo o mundo e introduziu o modo on-line praticamente a dois cliques de distância. Pressionando o d-pad para a direita abrimos um pequeno menu de ligação à rede sendo possível participar nas corridas dos amigos ou então escolher uma competição disponível a contar para o ranking ou não. Num breve instante entramos em competição para uma série de eventos disputáveis enquanto o host não inicia a corrida.
E o melhor é que o processo de adesão às corridas on-line, mais do que a rapidez com que se desenvolve, nem precisa que o jogador abandone a cidade ou tenha de parar a corrida que estava acometido. É uma inovação de valor acrescentado, igual a quem liga o rádio do carro enquanto conduz. Na competição em rede as provas são idênticas às disputadas no modo a solo, garantindo diversidade e longevidade por muito tempo, especialmente quando se pretende pular nas tabelas de liderança.
Imagem satélite tipo Google Earth de Paradise City. Mais de 300 km para explorar
Para quem habitualmente utiliza o
d-pad para movimentar os carros sentirá em
Paradise alguma dificuldade de adaptação já que as opções não permitem mudar o controlo do carro que se faz pelo analógico. Com tempo e adaptação, a utilização do controlo torna-se satisfatória, mas às vezes lá ocorre um e outro embate pela falta de precisão.Mas essa é uma situação superável que não põe em causa a composição global do jogo.
Paradise permanece em parte idêntico ao legado da série Burnout na forma como se revela acessível, entregando uma condução e física descomprometidas, bem patente nas imensas atravessadelas e curvas feitas de pé a fundo. Não se pode é deixar passar em claro uma imensa metrópole aberta à exploração e competição a cada intersecção. São tantos os desafios, objectivos e carros a desbloquear que vão ficar dezenas de horas à volta do jogo até completarem tudo o que é pedido. E pressionando um simples botão, como quem põe um carro a trabalhar, aparecem logo os adversários de todo o mundo para espalhar o caos e queimar borracha no asfalto. Correr assim, espatifar gloriosamente o carro e voltar à pista com um novinho em folha, só mesmo no Paraíso.
9/10 - Recomendado