O ÚLTIMO SAMURAI - MAIS DE UMA DéCADA DE PHIL HARRISON NA SONY
3 de março, 2008 01:43 AM por Vítor Alexandre
Este é o horror, o drama, a desgraça, o holocausto (aplicar tom de voz do Artur Albarran). Hoje, pela primeira vez, tomei a liberdade para incorporar nesta coluna o meu avatar chibi desenhado há uns tempos pelo nosso ex-comparsa Peddie. Quero aproveitar por isso para lhe prestar a devida e justa homenagem, a título contemporâneo, pelo grande desempenho.
Quase todos os elementos da anterior equipa do ENE3 tiveram o seu chibi, uma caricatura vincada, com assinatura, elaborada a partir de um processo meticuloso e que teve o mérito de absorver muitas expressões faciais apondo, além disso, o cunho pessoal na indumentária específica ou então pelo recurso a objectos, comportamentos, entre outros sinais distintivos do pessoal. Pelo magnífico trabalho aqui fica um abraço meu rapaz.
Esta semana ficou definitivamente marcada pela saída surpreendente de Phil Harrison do império Sony. É uma situação que causa alguma perplexidade, sobretudo pela rapidez com que se desenvolveu, um pouco ao jeito da saída em 2006 do ex-CEO da SCEI Ken Kutaragi, nessa altura umas semanas após o lançamento no Japão da Playstation 3.
Também agora é Phil Harrison quem se demite, rompendo assim uma ligação com mais de 15 anos à Sony, pejada de momentos de proveitoso sucesso, tendo no intermeio, assistido e promovido o desenvolvimento de jogos e estruturas para quatro sistemas de jogos.
Phil Harrison e Ken Kutaragi na apresentação da Playstation 3 na E3 2005. Ambos já deixaram a Sony
Com a saída de Harrison a Sony vê-se arredada de uma dupla de personalidades, posturas e estilos de oratória bem distintos, mas que foi absolutamente imprescindível para colocar a marca Sony Playstation no roteiro de ouro da indústria dos videojogos. É também manifesto que entre Kutaragi e Harrison sempre existiu uma grande empatia. Não obstante as diferenças de estilo na comunicação (o Kutaragi tinha tiradas polémicas como aquela em que caracterizou a Xbox 360 como uma Xbox 1.5, entre outras. Mas fora isso ajudou a edificar uma marca na indústria), notava-se entre ambos um sentido de encaixe proveitoso, como se ambos formassem uma equipa capaz de jogar pelas duas alas.
Numa entrevista à edição de Maio de 2006 da revista EDGE, quando instado sobre a pessoa que considera mais importante na indústria dos jogos, Harrison é peremptório: “Ken Kutaragi”, especialmente pela “habilidade demonstrada em criar mercados”. Aquando da estreia mundial em 1994 da Playstation, Harrison já desenvolvia funções no seio da marca, especialmente na Europa. Depois de 1996 foi preponderante no continente norte-americano no que tocou ao desenvolvimento de novos títulos para as consolas da Sony. A partir de Setembro de 2005 a Sony unificou os diversos estúdios de produção de jogos espalhados pelo mundo, sujeitando-os à Sony Computer Entertainment Worldwide Studios, estrutura para a qual Phil Harrison foi promovido, na qualidade de director. Competia-lhe por isso gerir e assegurar a estratégia de produção dos 13 estúdios de criação de jogos espalhados por cinco continentes.
Super Rub a Dub, jogo apresentado na E3 2005 que permitiu compreender as potencialidades do Sixaxis
Nessas funções, Harrison sempre demonstrou um perfeito entendimento das novas fronteiras do mercado, entre a oferta que deve ser destacada para alargar o leque da comunidade devota a uma consola. O enorme êxito da Playstation 2 não passou apenas pelos jogos triple A, dirigidos aos jogadores hardcore. Esse é um sector que prospera mas não é suficiente para tornar um sistema competitivo e destacável, capaz de superar a concorrência. Veja-se que a Xbox 360, não obstante um ano 2007 incrível em termos de jogos e grandes produções como Mass Effect, debate-se agora pela falta de alternativas, claudicando na área dos jogos de família para os jogadores casuais. Piñata e Scene it não chegam para incrementar a percentagem de um sector que a Nintendo foi capaz de tomar pela dianteira, sendo neste momento a Wii uma grande candidata apta a destronar o recorde da consola com maior número de unidades vendidas.

Para o êxito da
Playstation 2 foi imprescindível o apoio e promoção que
Harrison deu a jogos como
Singstar,
Buzz! e
Eye Toy. A necessidade de expansão do mercado e angariação de uma clientela menos viciada passa pelos jogos sociais, de família, que alimentam facilmente a colocação de várias pessoas num sofá, diante de um televisor, nem sendo preciso recorrer a ecrãs de alta definição para promover uma experiência apelativa e que no final faz vender mais consolas.
Nesta visão mais alargada e compreensiva das fronteiras do mercado,
Harrison sentiu-se, de há uns tempos para cá, menos apoiado, especialmente pelos directores da
Sony Japão, sempre relutantes na introdução de jogos sociais, num mercado que se mostra inundado de
Brain Traning e
Wii Sports.
Com a Playstation 3 e enfrentando uma concorrência muito diferente das predecessoras PSX e PS2, Phil Harrison não deixou escapar as suas divergências para com a divisão japonesa no decurso da GDC 2008, afirmando que “é algo interessante e frustrante na minha opinião, especialmente porque tenho vindo a repisar, desde há muito tempo, os jogos sociais como Singstar, Eye Toy e Buzz!”. Aprofundou ainda que: “E os nossos colegas japoneses diziam que não existe no Japão a área dos jogos sociais: as pessoas não jogam no mesmo sofá, simultaneamente, na casa de outros amigos, que
isso nunca acontecerá, e pronto, eis de repente a Wii”.
Desde o lançamento da Nintendo Wii que muito se tem comentado sobre a alteração do mercado japonês. Sob o nome código Revolution, a Nintendo lançou uma medonha campanha de marketing dos seus produtos, especialmente o Wii Sports, caucionando uma nova abordagem aos jogos e devolvendo aos jogadores parte do interesse que vinha desfalecendo há muito tempo. Phil, na linha por que sempre se pautou com os jornalistas, não deixa de reconhecer o sucesso da Nintendo, admirando a projecção da Wii no mercado. “O que é interessante nos anúncios da Nintendo é que eles sempre mostram a perspectiva a partir da televisão em direcção ao sofá, o que é muito perspicaz. E o que vês dali? Família ou amigos num sofá!”
É provavelmente precipitado retirar daqui, destas afirmações relativas à relutância da Sony Japão em aceitar os jogos sociais, o motivo para o fim do relacionamento entre Harrison e a Sony. A divergência não é de agora, remonta, ainda que de forma suave, ao período de ascensão da PS2.
Little Big Planet, grande aposta da Sony para este ano, promete uma narrativa e troca de conteúdos. Os bonecos querem farra.
Porque esta foi sempre a postura de Harrison, alguém capaz de se mostrar fiel à empresa, tutelando e resguardando os seus interesses nas relações e apresentações aos produtores, third partys, sem nunca deixar de criticar, ainda que a microfone desligado, aquilo que sempre lhe pareceu menos bem. Phil Harrison cultivou uma marca espantosa de sobriedade e elevação no discurso, ao melhor estilo britânico, bem patente nas inúmeras entrevistas, e quem não reserva na memoria as apresentações cativantes durante as feiras E3 e até a GDC 2007 quando expôs a estratégia on-line da PS3. O momento mais difícil terá sido porventura a E3 2005, com aquele conjunto de tech demos que muitos argumentaram ser baseado em animações não correspondentes à qualidade final do produto. Motorstorm, depois de lançado, permitiu esclarecer as nuvens negras que se adensaram, pois não ficou nada aquém no que se viu durante a conferência.
Buzz!, jogo social da PS2 que congregou jogadores casuais e famílias no sofá. A Sony Japão mostrou-se céptica quanto à distribuição deste software no seu mercado
Para a Sony a saída de Phil Harrison representa a perda de mais um rosto de sucesso, um director e relações públicas credível, comedido e pouco festivaleiro, mas acutilante nas perspectivas e estratégias de posição no mercado, aquilo que sempre fez com sucesso nos mais de 15 anos de ligação à Sony.
Kazuo Hirai é agora uma espécie de super CEO. Desde 29 de Fevereiro que passou a acumular as funções de director da SCEI com o cargo que herda de Phil Harrison. Hirai tem naturalmente outra postura, porventura não será capaz de assumir o sentido de persuasão que sempre foi marca de Phil Harrison, mas já deu provas, especialmente no mercado norte-americano, de estar à altura das exigências e controlo de produção. A Sony enfrenta um momento decisivo nas aspirações da Playstation 3 e PSP, particularmente agora que o Blu-Ray ganhou a batalha do formato digital ao HD-DVD, pelo que outros desafios se colocarão doravante. Ainda assim, o sistema on-line multiplayer Home, jogos sociais como Singstar e Buzz!, grandes produções e o inovador Little Big Planet, muito do trabalho de casa promovido e deixado por Phil Harrison, terá a devida sequência e finalização.
Estilo inconfundível durante a conferência da Sony na GDC 2007
Kaz Hirai passa a ser o homem forte da Sony na área do entretenimento. A próxima E3 ajudará a perceber o posicionamento da empresa até ao final do ano e sempre será importante descobrir qual a estratégia para o mercado japonês, autêntica fortaleza da Nintendo e para o qual, até agora, todas as tentativas de mudança mereceram pouco ou nenhum acolhimento.
Phil Harrison deixa a SCE como um homem de sucesso e com a sua demissão desaparece a última grande cara da projecção da Playstation 3, e mais que isso, da marca Sony Playstation. Só os próximos tempos ajudarão a perceber se este clima de mudança trará frutos proveitosos, ou adensará as dificuldades para romper até à dianteira, daquela que ainda é a marca que mais consolas vendeu em todo o mundo.
- Obrigado pela nota. Não sei por que fui escrever Kuturagi, quando fui ler à revista a entrevista e está lá Kutaragi. Alguma força do hábito, talvez.