
Um dos grandes defeitos no portfolio dos videojogos como entretenimento é que não há quase nenhuns que sejam genuinamente engraçados e bem-dispostos; jogos que sejam pensados para fazer o jogador rir (com a excepção daqueles que fazem rir por serem simplesmente tão maus -- desses ainda há uns quantos). Nunca houve muita fartura de videojogos com componente de comédia, mas hoje em dia são mesmo muito raros. O clássico Sam & Max Hit the Road era um desses poucos, e ao longo dos últimos meses a sequela tem sido recebida muito positivamente, uma série de curtos "episódios" lançados mensalmente a um preço reduzido. Finada a série, todos os seis episódios foram empacotados num DVD, "Season One", com os extras da praxe, e posto à disposição do publico que ainda tem fobia a comprar coisas na internet, ou que simplesmente gosta de ter os seus jogos em formato "físico". Mas será que nos faz rir?
É uma pergunta difícil de responder -- humor é algo altamente subjectivo, logo difícil de avaliar. Sam & Max varia bastante na sua qualidade de episódio para episódio, e o seu repertório vai desde o nonsence ao comentário politico, desde o gozar com a sociedade até a referencias à cultura internet, passando por algumas referencias ao jogo anterior. Para mim, o jogo foi constantemente bem disposto; nem sempre as graçolas arrancavam gargalhadas, mas também raramente caiam em saco roto, e a frequência é grande, pelo que há sempre algo engraçado ao virar da esquina. Não deixa de ser uma lufada de ar fresco num mundo dos videojogos que cada vez está mais sóbrio e sério.
Tal como o humor, também a jogabilidade tem os seus altos e baixos; é o típico jogo de aventura, tornado acessível e episódico, o que por um lado significa que a cada episódio temos novos objectos, enigmas e personagens com que interagir, mas por outro temos menos localizações por episódio, e um restrito numero de objectos e interacções possíveis em cada um. Controlamos Sam, e a mecânica é sempre a mesma - falar com personagens, inferir o que fazer, apanhar objecto x, usar em objecto/local/pessoa y, avançar. Nem sequer é possível combinar items do nosso inventário entre si, pelo que na maioria dos casos os puzzles são bastante óbvios. E quando não são, há sempre a possibilidade de pedir uma dica ao parceiro Max.
Os gráficos são agradáveis, altamente cartoonescos, mas em 3D; nada muito exigente, o jogo correrá em PCs mesmo com as placas gráficas mais fracas. Não há muita animação mas a que há está bem feita. A musica varia entre alguns temas verdadeiramente memoráveis e outros que incomodam ao fim de um quarto de hora.
Nota-se uma boa progressão na série -- cada episódio é melhor que o outro, tanto em termos mecânicos como humorísticos. Tal como uma série de TV, os cenários não variam muito, e as personagens também não, mas a realização de ambos é boa suficiente para que isto não seja um ponto negativo. Desde derrotar uma apresentadora de talk-show que força a sua audiência a manter-se no estúdio, até tentar destruir um RPG online de realidade virtual que está a hipnotizar a população mundial, os desafios que Sam & Max nos lança são sempre inesperados e engraçados. No entanto, o jogo, em virtude da sua simplicidade, especialmente para quem está habituado a este género, é por vezes mais uma animação cómica interactiva do que um jogo propriamente dito.
Sam & Max é um bom jogo para relaxar: ginástica mental ligeira combinada com um humor corrosivo e nonsence, apresentado em sessões passiveis de serem completadas num par de horas. Mas os adeptos do género ficam avisados: se pretendem um desafio, não é aqui que o vão encontrar.
7/10 -- Recomendado