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Na geração anterior de consolas a redefinição dos jogos de vídeo enquanto medium aglutinador de áreas adjacentes como o cinema e a música ficava perto de um resultado bastante credível. Tal alcance ficava por atingir na perfeição devido às limitações das consolas e até pelos formatos de reprodução.
Contudo, ainda foram em número suficiente os títulos que andaram lá perto e não faltaram personagens de rosto polido envolvidas em enredos de espionagem e terror, deixando somente a título de exemplo Metal Gear Solid 3 e Resident Evil 4 como jogos sonantes e cujas experiências facilitam a equiparação com alguns parâmetros do cinema. Mas agora tal aproximação é por demais evidente e quando os jogadores trocam televisores base de 35 cm por finas telas LCD com mais de 32 polegadas tudo fica mais nítido. Jogar uma das recentes novidades diante de um grande ecrã pode tornar-se numa experiência intensa, visualmente arrebatadora e plena de carga emotiva.
Os realizadores emprestam o seu saber, actores conhecidos dão voz às personagens e os produtores sentem-se motivados por acrescentar ritmo cinematográfico às suas criações.
Não foi por acaso que Brian Eddy, director do projecto de Stranglehold, encetou conversações com John Woo para, conjuntamente, criarem um jogo que fosse representativo do legado do realizador chinês, enquanto que Woo, em sintonia, tinha a firme convicção que esta é a altura ideal para lançar um videojogo: um digno herdeiro das suas contribuições para o cinema. Temos assim Stranglehold como prolongamento em formato jogo de vídeo de HardBoiled, filme produzido antes de Woo emigrar para Hollywood. Descargas de chumbo, momentos em câmara lenta e um polícia vingador desejoso de selar a máfia e os tentáculos do tráfico de estupefacientes constituem o cerne do jogo com toneladas de pura acção e de grande espectacularidade.
Não fiquemos com palavras brandas, o que este jogo tem para oferecer aos magotes é acção pura e dura, de forma contínua e praticamente incessante. Admitindo, porém, que este ritmo seja gerador de uma certa repetitividade, a inclusão dos poderes especiais adquiridos logo de início, refresca os combates e aquilo que podia ser encarado com monotonia pelas dezenas de inimigos para abater em certas áreas, pode facilmente transformar-se numa experiência divertida e empolgante.
Um polícia à prova de bala
A narrativa de Stranglehold não precisa de grandes premissas ou guerras do fim do mundo para mergulhar o jogador num autêntico jogo de acção. Situando-se geograficamente numa urbe pobre de Hong Kong, tudo começa quando um polícia é raptado por um gang de desconhecidos que exigem a presença imediata de outro agente numa feira das proximidades. Tequila é o agente destemido que se voluntaria para a tarefa, atirando-se ao trabalho com um par de pistolas sequiosas de tiroteio. Pouco depois Tequila apercebe-se que as teias do crime se alargam a grupos rivais passando pela Máfia Russa, num enredo com traições e momentos inesperados, obrigando o inspector a deslocar-se da China até aos EUA.
É precisamente este aspecto de deslocação e movimentação da narrativa que originou a criação de cenários variados, muito genuínos e distintos, tal como sucede em certos filmes de acção. A escolha das áreas é pouco artificial e antes realista com uma caracterização que se pode definir muito acima da média perante outros jogos. Para mais tudo é passível de destruição e depois de um combate mais vivo a sensação que fica é que um grande vendaval passou mesmo por ali. Até grandes estátuas ou objectos de assinalável dimensão podem ser desfeitos aos bocadinhos. E ajustada à narrativa, a representação física dos espaços é um dos melhores pontos do jogo. Ambiente muito realista e livre pela boa reprodução de cenários abertos, amplos e com grande profundidade como as docas de Hong Kong onde se desenvolvem combates de proporções gigantescas até grandes edifícios abandonados e escurecidos pela passagem dos anos naquela que é uma das grandes aproximações ao estilo do ambiente representado em Resident Evil 4.
Os gráficos não chegam ao pináculo do melhor que a presente geração já ofereceu, mas nem por isso deixam de apresentar momentos de assinalável detalhe com muitos efeitos visuais de realce. Ajudados por um motor gráfico potente (Unreal Engine 3) não há momentos de quebra de frame rate. Mesmo no decurso de explosões e momentos de maior agitação o jogo é muito estável mostrando-se globalmente superior a outros títulos badalados por amplificadores como sendo o último grande next-gen.
As cut-scenes não desiludem. Pelo contrário. Os rostos das principais personagens são muito detalhados, principalmente o inspector Tequila sobressaindo com uma representação muito convincente, a par de outras personagens centrais como bosses, etc. Mais que isso quando Tequila é atingido fica salpicado de sangue e nota-se que a personagem sofreu e traz consigo sequelas dos confrontos numa descrição muito realista.
Strangle”showoff” e Tequila time
Sendo Stranglehold o sucessor de HardBoiled, John Woo não abdicou de alguns pontos especiais como a presença e voz de Chow Yun Fat (o teimoso inspector Tequila) e todo um estilo de acção pomposa que combina entusiasticamente os momentos slow-motion com efeitos visuais que marcam o registo do realizador. Não deixando de ser evidente o paralelismo traçado com outros jogos que fizeram imagem de marca em torno do bullet-time em Max Payne, Woo tem o mérito de reivindicar a autoria dos melhores efeitos do jogo.
O momento Tequila Time é activado a todo o tempo, causando um efeito de câmara lenta que retarda as balas disparadas pelo inimigo e permite à nossa personagem esquivar-se da trajectória enquanto dispara na direcção oposta. No entanto, a utilização dessa vantagem é limitada a um lapso de tempo registado numa barra anexa à indicação do nível de vida mas também é recuperada quando o agente circula livremente. O Tequila Time não facilita propriamente a luta contra os inimigos, mas serve para acrescentar grandes momentos de diversão, uma forma alternativa de lidar com os inimigos. A vantagem e habilidade dessa especialidade resulta precisamente da ligação com os movimentos do inspector nos momentos em slow-motion.
É todo um espectáculo visual que se gera, ficando o cenário e personagens reduzidos a cor sépia quando vemos a personagem principal usar as paredes e esquinas dos cenários para rodopiar no ar aos tiros, disparar lateralmente, flectir as pernas contra uma parede para um voo heróico, como se não existisse gravidade. Mas na evolução do jogo verá que a possibilidade de movimentos especiais é colossal como a descida efectuada através de cordas. O sistema de controlo é perfeito, e os tiros, quando certeiros, mais do que aliviarem a carga de inimigos, contribuem para encher um medidor que permite accionar poderes especiais, verdadeiramente letais.
Inspector endiabrado
Uma grande tendência do jogo é que os inimigos chegam de todas as áreas e mais para a frente apetrechados de armamento pesado, flanqueando totalmente a personagem e obrigando-a naturalmente a usar poderes especiais, os denominados Tequila Bombs para desmontar o cerco. No começo nem todos os poderes estão disponíveis. É preciso fazer movimentos com estilo e acertar nos bandidos para acumular pontos de performance. Depois de efectuados combos os poderes ficam à disposição da nossa personagem. Por um lado é verdade que estes movimentos facilitam a progressão, aliviando a chuva de tiros e proporcionam quase sempre uma limpeza total do cenário, ainda que por breves instantes, como acontece quando se faz uso do spin attack. Este é de todos o mais letal, mas também o que exige menos intervenção, nenhuma até. Os restantes como o Barrage Attack ou Precision Aim requerem destreza, habilidade e rapidez, em particular este último que é revelador da sintonia do jogo com momentos cinematográficos. Trata-se de um ataque que consiste numa forma de acertar num inimigo distante. Se a bala for certeira o inimigo é despachado com o melhor estilo possível.
Uma das grandes virtudes deste jogo é a possibilidade de usar elementos do cenário para atormentar os adversários, causar maior destruição e gerar pânico. São botijas de gás que rebentam, latões cheios de combustível que explodem, mesas que são atiradas contra os inimigos, pontes e eixos quebrados que desmoronam refúgios cimeiros. É fantástico assistir ao ciclo de destruição nos espaços por onde passa Tequila. E alguns momentos são mesmo de cortar a respiração. Acreditem. Há cenários verdadeiramente colossais que praticamente nos fazem estar ali só uns segundos e instantes a contemplar todo o ambiente e tanto pode Tequila começar um confronto num parque de estacionamento de um edifício como acabar esse capítulo noutro local totalmente oposto com um boss surpreendente. Talvez o ritmo e sequencia de combates seja o factor que concebe mais alguma repetição e cansaço, mas um jogo de acção não é uma aventura e por isso não contem com puzzles ou outros movimentos parecidos.
O arsenal bélico é do melhor para o género: desde pistolas a metralhadoras e espingardas, a diversão é de valor adicional quando ainda são juntas granadas e um lança mísseis lá para a parte final num combate épico. Motivos não faltam para criar intensas batalhas com assinatura cinematográfica.
De resto a movimentação da personagem podia ser mais fluida e suave. Mas nada que uma meia-hora de jogo não deixe de resolver. A curva de aprendizagem é bastante simples e para mais, quem tiver a 360 ligada ao Live, fica a saber que a demonstração do jogo já está há muito tempo no marketplace proporcionando um primeiro contacto com o jogo.
A componente sonora está ao nível e ajusta-se ao ritmo da acção, incrementando a intensidade dos combates com alinhamentos típicos de filmes asiáticos. O tema central do jogo fica facilmente no ouvido e quando acompanhado pelos balázios nos tiroteios o que fica é mais uma definição de Stranglehold.
O ponto mais fraco desta obra é claramente a componente multiplayer. É pouco viciante e muito longe de garantir a intensidade da aventura a solo. Há jogos assim, que são mesmo bons naquilo que se propõem, entregando momentos a solo divertidos e excitantes e com isso deveriam ficar por aí.
Os combates para múltiplos jogadores são precedidos de alguns erros (o jogo encrava) e tempo excepcional de espera no ecrã de loading é secante. Como é habitual nesta componente os combates subdividem-se entre jogos a contar para ranking ou estar ali apenas por puro divertimento. Mas é tudo menos satisfação garantida. O Tequila Time só pode ser usado uma vez e nunca em simultâneo, factor que obriga um jogador a arcar com a câmara lenta quando está longe de algum adversário. As áreas de jogo não são tão emocionantes e os factores espectacularidade, ambiente, cenário e conjugação com os inimigos desaparecem por completo. Stranglehold não foi concebido para ser jogado em multiplayer. A componente só está ali para proporcionar mais algum conteúdo e longevidade, mas depois das sete ou oito horas principais, a melhor forma de passar mais tempo com o jogo é experimentar níveis superiores de dificuldade, especialmente o Hardboiled, difícil até dizer basta.
Desde início e ao dispor há uma Unlock Shop, gerida pelo John Woo em pessoa onde poderá trocar pontos de estilo por dezenas de brindes como artwork dos cenários, filmes, momentos em produção e tantos outros desbloqueáveis. É uma opção divertida que permite sobretudo ficar a saber mais sobre o jogo, o seu processo de desenvolvimento e como o resultado final de muitas áreas de jogo é mesmo brilhante.
Pouco mais há a acrescentar. O jogo acaba ao fim de sete a oito horas, mas mais tempo para este género baseado em tantos confrontos à mão armada seria um aborrecimento. E se é possível admitir que o ritmo inicial contribui a médio termo para alguma repetição, esta também se dilui pelos grandes méritos como a cadência frenética e alucinante dos combates, a grandiosidade dos vôos e mergulhos do inspector, rodando no ar perante as balas dos inimigos. As cenas animadas, o cariz cinematográfico subjacente ao género (sem desfazer a base que é um jogo de vídeo), a variedade de armas e sobretudo os cenários enormes e destrutíveis servem bem para definir Stranglehold como um jogo onde as palavras Massive Destruction se aplicam a toda a largura.
8/10 - recomendado