
O processador Cell. Uma parceria com a NVidia. Promessas de revolucionar a industria. Promessas de manter a liderança num mercado extremamente concorrido. Promessas de ser o mais completo sistema de entretenimento. A Sony prometeu muito com a Playstation 3, e só um idiota esperaria ver tudo isso concretizado no lançamento da consola. A história diz-nos que só um ano após o lançamento é que uma consola começa a dar mostras daquilo de que é realmente capaz. O tempo da Playstation 3 mostrar o que vale está a chegar, e Heavenly Sword encabeça a ofensiva de jogos para este final de ano.
Uma equipa que trabalha no projecto já desde antes das consolas de nova geração terem sido anunciadas; contribuição de actores famosos de todos os cantos do mundo para darem as vozes às personagens numa dúzia de línguas diferentes; as melhores e mais avançadas técnicas de animação da actualidade; um mote artístico irrepreensível; uma banda sonora de luxo; e jogabilidade inspirada em clássicos do género como God of War, Ninja Gaiden, ou mesmo o antigo Golden Axe. Heavenly Sword promete ser o grande jogo deste final de ano. Será que cumpre?
A história não é demasiado complexa: uma espada sagrada confere poder extraordinário a quem a empunhar, mas o preço é a morte; uma tribo nómada dedica as suas vidas a proteger a espada de quem a queira usar com intuito maléfico; um rei tirano dedica todo o seu exercito a uma busca incessante pela espada, para a erguer como símbolo máximo do seu domínio total sobre o mundo. É a maneira como é apresentada esta história que a torna épica. As actuações das personagens virtuais, baseadas em motion-capture de actores reais, estão soberbas; nunca desde Half-Life 2 se tinham visto personagens com tal capacidade de expressar emoção; a actuação de voz, seja em português ou em inglês, é exemplar; e a banda sonora orquestral é possivelmente a melhor apresentada até agora nesta geração.
Os modelos dos personagens estão, pois, extremamente detalhados; mesmo os inimigos são muito bem representados, ainda que pouco variados -- um verdadeiro exercito de clones, ao menos no velho Golden Axe sempre usavam o truque de mudar as cores. Os cenários estão espectaculares, e é impressionante a quantidade de detalhes e animação casual que existe neles, desde bandeiras a esvoaçar até cataratas a quilómetros de distância. Os seis capítulos que constituem o jogo não variam drasticamente o cenário, mas fazem-no o suficiente para se sentir que estamos num mundo coeso e ao mesmo tempo não os tornar enfadonhos. Graficamente Heavenly Sword é quase perfeito -- borra a pintura a framerate inconstante, nunca desce para níveis de slowdown mas raramente atinge as ideais 60 frames por segundo. Coisa que é perdoável quando o jogo mete literalmente centenas de inimigos no ecrã, mas não se percebe quando há pouco mais de meia-dúzia.
É claro que o que faz ou quebra um jogo de acção é o seu sistema de combate, e não há duvida que o de Heavenly Sword tem potencial. Em luta, a posição por defeito de Nariko é o "estilo de velocidade", que bloqueia automaticamente ataques de velocidade, que se reconhecem porque os inimigos ficam com uma aura azul quando os executam. Manter pressionado L1 leva-nos ao "estilo de alcance", que não permite bloqueios mas cujos ataques de longo alcance servem para dispersar inimigos e deflectir projecteis. Pressionando R1 passamos ao "estilo de força", ataques lentos mas devastadores e bloqueio automático de ataques de força, laranja. Cada posição tem as suas próprias combinações, e mais para desbloquear ao longo do jogo; o timing para realizar as combinações é algo diferente ao que estamos habituados, sendo que em vez de pressionar os botões o mais rapidamente possível, devemos fazê-lo de forma rítmica e atempada em relação às animações de Nariko; isto, combinado com o facto de que para bloquear não podemos estar a atacar, devia implicar que, em teoria, seria necessário dominar o sistema de combate para ser bem-sucedido no jogo, em vez de simplesmente martelar os botões do principio ao fim. Infelizmente o jogo é moderadamente fácil e na maioria das situações martelar os botões serve, havendo pouco incentivo para dominar o sistema.
Noutro piscar de olho a Golden Axe, carregar no circulo depois de acumuladas algumas mortes resulta num ataque especial, que pode ter três níveis: o primeiro mata um inimigo, o segundo mata um inimigo e dá danos a todos em redor, e o terceiro mata todos os inimigos em redor. Outra componente interessante do combate é a capacidade de agarrar e arremessar quase tudo -- mesmo corpos de inimigos caídos -- e controlá-los em câmara lenta em direcção ao seu alvo, usando o sensor de movimento do Sixaxis ou o tradicional manipulo analógico. Eu não gostei da sensibilidade do sensor de movimento e rapidamente passei a usar o manipulo, mas suponho que seja uma questão de preferência individual; é bom termos a opção. Outro lugar onde esta técnica é empregue é nos níveis de Kai, e alguns de Nariko, em que a acção passa a ser dominada por tiros de besta e canhão; estas secções servem perfeitamente para variar da acção normal, são bem realizadas e, graças ao sistema de controlo de projecteis, bem divertidas.
Com apenas seis capítulos, que obedecem à típica estrutura "várias salas com inimigos, e um boss no fim", salvo uma vez por outra em que há um "enigma" à mistura (uso aspas porque normalmente é um simples caso de encontrar um chapéu e descobrir um gongo para onde o arremessar. Não, a sério.), Heavenly Sword é um jogo curto. Não há exploração, é seguir sempre em frente; os bosses são interessantes, de um design muito clássico: evitar os ataques, descobrir um padrão, e atacar no momento de fraqueza -- só pecam por ter vida demais, sendo que as batalhas se esticam um bocadinho para além do interesse.
É fácil ver a intenção da equipa ao criar Heavenly Sword -- um jogo curto mas intenso, tal como um bom blockbuster de acção; um jogo simples de acabar, de modo a que todos possam apreciar a história, e com um modo de dificuldade acrescida para desbloquear, ai sim somos recompensados por dominar o sistema de combate -- tal opção devia estar disponível logo de inicio. Temos portanto um jogo que sem duvida leva a industria dos videojogos mais adiante enquanto forma de arte -- nunca nenhum jogo teve valores de produção tão elevados, "actores" digitais tão sublimes; mas também é um jogo que tem algumas lacunas em partes importantes. Curto e linear, Heavenly Sword acaba por ser mais semelhante aos jogos de acção do passado do que aos actuais com que é tão comparado -- com a diferença fundamental de ser relativamente fácil. Com duração de cerca de 6-7 horas, é um investimento que só se justifica se o jogador se sentir compelido a acabá-lo mais que uma vez. Felizmente, a excelente qualidade de todo o jogo, desde a actuação ao sistema de combate, passando pelos gráficos e musica, faz com que uma repetição seja muito aliciante.
8/10 -- Recomendado