
Imagine o leitor que num destes dias é levado por alguém seu amigo ou familiar a visitar uma exposição. Um largo conjunto de quadros do pintor surrealista Juan Miró. Chegados ao local detêm-se na observação da primeira tela. Considere também que pouco ou nada sabia sobre o autor em questão e que a concretização naquele quadro é de tal modo surreal que não consegue distinguir ali algo de objectivo e de palpável capaz de lhe proporcionar uma solução imediata.
Porém, alguém que faz vigilância e dá o apoio na exposição, observa a sua inquietação. Ajudando-o, cede-lhe um panfleto com os traços distintivos das obras. Como estas devem ser interpretadas, quais os significados, os simbolismos ou seja, como o autor catalão queria que as pessoas percebessem aquilo que retratava constantemente.
Motivado e com a solução na mão, parte com aceso e renovado interesse para a observação dos outros quadros. Mas pode bem suceder que após a percepção global do ponto-chave que lhe foi dado, conclua que não há muito a ver naquele lugar. Tudo persiste demasiado fora do comum, muito vago, pouco objectivo e perceptível e, frustrado, arreda pé dali, deixando apeado quem o levou até lá.
É nesta dualidade e separação insanável que se atinge o vértice de imensas discussões ao redor de Space Giraffe, a menina dos olhos de Jeff Minter, programador britânico com créditos firmados junto da Llamasoft.
Pode-se mesmo dizer que Space Giraffe é um jogo criado por corpo e alma, uma realização plena das convicções do seu produtor. Tem uma certa marca, muitas referências de Tempest, outro jogo clássico desenvolvido por Jeff Minter, um jogo arcade, shooter, cuja estrutura, pouco usual, se desenvolve igualmente através de um conjunto de segmentos.
Há muito tempo que o programador britânico se vinha dedicando à construção de Space Giraffe e pelo tempo que empregou nos 100 níveis, na moldura e forma do jogo, estas girafas são defendidas com imensa paixão pelo seu produtor.
Jeff sempre nutriu interesse pela mistura de cores, uma fusão específica entre cor, música e ritmo e com verdade, há imenso ritmo neste Space Giraffe, sente-se um pulsar constante nos níveis. O brilho das cores varia em função das batidas, plenas de espírito electrónico. Poderiam ter acrescentado mais alguns temas e até mesmo alguns do género trance pois na altura em que vingam cada vez mais as televisões de alta definição são atingidos interessantes resultados sonoros que aqui fariam toda a diferença. Ao fim de alguns níveis os temas musicais repetem-se, mas o círculo visual tende a variar de tal modo em função da representação dos níveis dado que cada nova área é sempre um desafio, como se tratasse do primeiro.


Mas a razão principal da intriga e divisão de Space Giraffe é o seu carácter abstracto. Space Giraffe é abstracto. Ponto. Basta ver que controlamos uma girafa que dispara tiros a partir dos calços e aquilo que vemos não é mais que uma cabeça geometricamente similar à de uma girafa. Mesmo na restante composição nada é claro. Faltam elementos objectivos, daí o desconforto inicial que possam sentir muitos dos que se juntam a esta obra. Aquela girafa é sobretudo uma representação gráfica que Jeff faz de uma animal que percorre dimensões no espaço, atravessando buracos negros, encravando em certas áreas e nas quais terá de ultrapassar hordas de inimigos. Os fundos assemelham-se mais às explosões celestes, deixando rastos e nuvens com cores baseadas no vermelho, amarelo, azul e verde.
Deste ponto o jogo aproxima-se bastante de outros como Rez e Vib Ribbon. É um jogo com um visual muito intenso, mas totalmente abstracto, sendo bastante vertiginoso na forma como os efeitos passam de lá para cá. Para muitos é possível que a sensação de desconforto seja predominante e insuperável. As cores escolhidas mudam constantemente ao ritmo da batida sonora. Mas esta é a forma exterior de Space Giraffe. A representação gráfica que o autor do jogo pretendeu colocar num jogo que em termos práticos é um shooter on-rails de cariz arcada.
Bem conseguido neste jogo está a estrutura prática com elementos habituais e referências típicas de outros shooters. Diga-se, porém, que de início não é fácil compreender as regras e fazer uma adaptação imediata aos mecanismos de jogo. Este tem sido igualmente outro ponto de divisão pois muitas pessoas jogam Space Giraffe sem saber a diferença entre fazer 3 mil pontos num só nível ou fazer 1 milhão de pontos. Nesse preciso ponto é que reside a essência de Space Giraffe, a vontade entre querer continuar a jogar para chegar ao score perfeito, ou o princípio para um desinteresse crescente quando se dispara continuamente para o fundo sem ter bem a noção do que se faz.
Talvez por isso a curva de aprendizagem seja progressiva, um pouco mais demorada que o habitual e isso vai requerer não só a leitura atenta do manual, mas também a passagem pelo tutorial, as vezes que forem necessárias, até o jogador ficar completamente adaptado à forma como deverá atacar os inimigos, mas também evadir com sucesso os ataques que lhe são apontados.
O mecanismo de jogo, apesar de parecer algo complexo de início, revela-se muito simples depois do processo de aprendizagem. Como já referi atrás, o jogador comanda uma girafa espacial que em cada nível se fixa na ponta de uma espécie de rede, e da qual, do lado oposto, chegam inimigos de vária ordem, alguns de maior complexidade à medida que se percorrem os 100 níveis. Uma das regras fundamentais é manter a power zone activa, pois enquanto esta perdurar a girafa pode tocar nos inimigos mais simples sem perder uma vida. Do outro lado da rede surgem com frequência alguns power up, nada mais nada menos que jump pods, úteis e decisivos para a girafa saltar na ponta da rede sobre os inimigos, atirando-os borda fora, no momento em que já não tiver mais power zone.


A girafa tem ao seu dispor um conjunto de poderes para tornar o desafio equilibrado. Tem por exemplo a possibilidade de detonar uma bomba (situada na ponta da cauda) em cada nível para o preciso momento em que a acção estiver realmente insuportável. Há também o fundamental e permanente disparo proveniente dos calços sempre adequado a afastar para fora as perigosas balas e demais inimigos.
É referido algumas vezes que é difícil fugir a tempo das balas, ou afastá-las devido à conjugação forte de cores que se gera num espaço tão pequeno. É um ponto que dificilmente e só em casos muito raros posso concordar. As balas nunca avançam tão depressa, têm sempre um brilhar diferente dos outros elementos e mesmo que estejam perto podem ser atingidas pelos disparos da girafa, dado que os calços mudam de posição através do analógico inferior.
Há outras regras elementares, mas essas ficam para surpresa e exploração do jogador caso sinta que este é um jogo que pode e vai gostar de usufruir.
As estruturas escolhidas para os níveis nunca se repetem, há diferenças por cada nova área. Algumas "redes" exigem até voltas de 360º, um processo que pode ser mais complicado em virtude das manobras invertidas e com o habitual frenesim de inimigos que percorre a área convém manter toda a concentração possível para não esbanjar uma vida.
Percorrer os 100 níveis de Space Giraffe é uma aventura comprida, uma tarefa que sempre lhe custará um bom conjunto de horas. Basta ver que só os primeiros 20 níveis de jogo podem custar-lhe perto de quarenta minutos. Há sempre algum cansaço que se apodera em dada altura, mas nem que seja derrotado a meio do jogo tem sempre a possibilidade de começar a jogar a partir do último nível que foi capaz de desbloquear. Um esquema que lhe permite conhecer melhor os níveis antes de partir para o score attack.
Um jogo feito à medida e imagem de Jeff Minter não podia existir sem os habituais momentos de humor, refinados, de um tipo britânico algo corrosivo por vezes. E isso é muito patente nos sons da girafa ruminante e nos incentivos ou insultos após a pontuação obtida em cada nível.
Space Giraffe é um jogo de visual abstracto, possivelmente difícil de entranhar ou dar razões para apelar ao público em geral, e com isso Jeff sabia de antemão que estaria a cultivar uma margem para deixar muita gente fora da sua obra. Mas também é preciso valorizar a intenção daquele que é um projecto abraçado e finalizado com base nas convicções mais profundas do seu programador. E nestes elementos distintivos está, para além do grafismo abstracto, uma estrutura muito similar de clássicos shooters das máquinas arcadas, porque ao fim e ao cabo também se joga como um título frenético para o recorde absoluto.
A estrutura motora e dinâmica de Space Giraffe é praticamente perfeita e assim que são dominadas as regras elementares pode dizer-se que passou por uma experiência infernal e apaixonante capaz de o marcar em definitivo. Só precisa de ter interesse e atenção. E uns modestos 400 MP. Bem barato.
8/10 - Recomendado