
Se os jogos de carros pudessem encontrar o seu equivalente na realidade das mais prestigiadas provas mundiais desportivas de automóveis, Forza Motorsport 2 (FM2) seria seguramente a mítica prova das 24 horas de Le Mans. Neste jogo desenvolvido em exclusivo para a Xbox 360 pela equipa Turn 10 há uma imensidão de grandes automóveis pintados por diversas categorias num ambiente de acesa competição, asfalto riscado a borracha nas trajectórias, travagens suadas e conduções exigentes ao longo de percursos de grande memória como Nurburgring, Laguna Seca, Mugello, entre outros.
FM2 é um potencial medidor dos grandes pilotos. Todos arrancam em igualdade de material e fornecimento de equipamento, mas é sobretudo na preparação da melhor afinação que se inscreve a separação entre os normais e os grandes pilotos, estes capazes de atingirem resultados de ponta a par de uma progressão na carreira recheada de enormes sucessos. Que não sobejem dúvidas, os parâmetros de afinação dos carros são de relativa complexidade, apelando sempre ao engenheiro mecânico que há em cada entusiasta por automóveis.
FM2 é um simulador podendo ser mais puro, duro e castrador para os aventureiros que preferem pequenos "power slides", condução no limite do risco e exigente, mas também as indispensáveis décimas de tempo suplementar ganho aos adversários. Porque é também disso que trata FM2; quadros e quadros de cronos. Tabelas de classificações para as mais diversas categorias aptas a consulta no jogo, mas também no respectivo site do jogo onde impera uma gestão mediática através da publicação de todos os resultados possíveis, desde voltas mais rápidas até entradas para os torneios. Uma verdadeira perdição. Vive-se muito de rankings comparados e individuais (sempre em constante modificação), de voltas rápidas, tempos totais, vitórias, enfim, este jogo é o RPG dos automóveis e sem exagero, pode-se passar uma inteira geração de consolas a jogar Forza 2 pois o que não falta são constantes afazeres. Ao contrário de jogos arcade nos quais predomina a escolha de um veículo, pequenas alterações e progressivamente se vai completando o jogo à medida que objectivos mais simples são atingidos, FM2 tem sempre o aliciante de mais um carro que falta (o efeito Pokemon), que é customizado, modificado, atingindo classes superiores, conhecendo glória nas provas multiplayer e podendo ser vendido na sala dos míticos leilões onde se atingem verbas milionárias. Há uma constante interacção e personalização (como veremos mais adiante através das pinturas exclusivas).

Não se pense que estes resultados se fazem da noite para o dia, só com empenho, muita dedicação, estudo e conhecimento dos pontos de modificação nos carros é que será possível, progressivamente, apresentar grandes bombas, fazendo delas autênticos bombons de condução. O arranque no modo carreira é lento. O jogador parte com um número limitadíssimo de créditos naquilo que é indispensável para aquisição de uma maquineta barata, embora suficiente para competir a sério e assim providenciar os primeiros grãos de cacau. A partir daí é toda uma bola de neve que se desenrola através de uma estrutura que não é novidade para quem for familiar com jogos como Gran Turismo ou até o precedente de FM2. Com dinheiro adicional compram-se novas peças aptas a melhorar a eficácia do carro em pista com respostas mais adequadas às curvas, maiores velocidades, etc. Tudo depende das escolhas, havendo quem prefira salvaguardar a segurança do carro em primeiro lugar e partir depois para os kits de potência. Há muito a fazer nesse aspecto. O modo carreira será por isso aquele que vos fará perder mais tempo, mas também conhecer melhor os carros, personalizando-os. Em alternativa, também se afigura como vantajoso - garantido algum equilíbrio à progressão no jogo - o modo arcade que nos deixa logo de início saltar para dentro das grandes máquinas, num gostoso périplo por todas as categorias.
O modo Exibithion é constituído por várias provas, nas quais o jogador escolhe uma classe, compete com rivais da mesma categoria e se esforça por assegurar a vitória que lhe dará o prazer suplementar de ver reforçada a garagem pessoal com 3 novos carros, muitos deles bloqueados. E aqui volta toda a orientação em torno das tabelas de tempos; não basta ganhar corridas. Quanto mais rápida for cada volta melhor é o tempo total, reforçando o ranking do jogador. Forza 2 é um jogo de constante pé na tábua.
O modo Time Trial é igualmente indispensável para desbloquear mais viaturas, carros rápidos, todos elencados por distintas categorias. Neste modo arcade o objectivo é suplantar o tempo base (ser até o mais rápido possível) e, no final, mais um carro fica à nossa espera. Contudo, estes carros só poderão ser utilizados no modo Exibithion, Time Trial, Free Run e multiplayer, pois seria doce demais ter um modo carreira tão facilitado que pudesse desde logo beneficiar deles. Mas é um equilíbrio salutar, esta permissão dos carros mais rápidos como os que habitualmente se vêem em provas de resistência ao jeito de Le Mans e campeonatos mundiais de grande Turismo. Podemos alternar e sentir logo de início emoções fortes ao pilotar um Audi R8, Bentley, Ferrari 430 da Rizi Competitione, muitos Porsche, carros verdadeiramente bestiais, sempre a altas e arriscadas velocidades dentro dos brilhantes 60 frames que a Turn 10 foi capaz de alcançar.

FM2 tem um estilo único e preciso de condução, das mais exigentes até à data, para mais se contarmos com a possibilidade de uma postura mais arrojada e desportiva após desligarmos as opções do ABS, controlo de tracção e de estabilidade. Geralmente as ajudas facilitam a abordagem às curvas, mas também retiram alguma velocidade, bem como algum gozo adicional. Mas tenham sempre atenção que uma curva falhada praticamente é tempo irrecuperável se os adversários mantiverem o ritmo constante. Daí terem sido reconduzidas à prática, tal como no jogo predecessor, as linhas de trajectória ideais com riscas verdes para aceleração e riscas vermelhas para as travagens. Por outro lado a equipa de produção trabalhou em prol de uma recreação o mais fiél possível de cada um dos automóveis, daí as reacções distintas proporcionadas pelos carros. Mesmo as viaturas da mesma classe têm comportamentos distintos. Se considerarmos na classe R1 o Ferrari F333 SP vemos que é um carro muito estável, rápido e com grande capacidade de aderência às curvas, ao passo que o Toyota GT One apresenta uma tendência ligeiramente sobreviradora à saída das curvas. Mas lá voltamos ao ponto das afinações. Com pequenos acertos na aerodinâmica, eixos e suspensões podemos moldar a eficiência do carro a nosso gosto.
Ao todo são mais de trezentos carros que poderá desfrutar. Subdivididos por diversas categorias desde os carros de série, clássicos, desportivos, super-desportivos, protótipos de gerações anteriores, carros oficiais de competição desde as categorias R4 até R1 em que a diferença se mede pela cilindrada e relação peso potência. É uma autêntico Salão Mundial com carros que facilmente reconhecerá pelas vitórias que alcançaram, servindo até um propósito subliminar da história do automóvel, encontrando por exemplo um Saleen que fora pilotado pelo português Miguel Barbosa. Também lá está o BMW M3 de competição que o nosso Pedro Lamy conduziu em 2004 nas 24 horas de Nurburgring, que venceu. Tem todo o tipo de carros, sempre de um modo muito equilibrado, passando pelos carros principais de estrada e de pista das marcas de todo o mundo.

FM2 é um jogo à escala mundial, mas em pouco tempo sente-se a falta de mais pistas reconhecidas ao passo que foram exageradas as originais (todas transitadas de FM) por serem lentas, pouco apaixonantes, muito cruzadas e até monótonas. É sempre mais interessante fazer os trajectos de Mugello, Laguna Seca, Sebring, Suzuka, Silverstone, Tsukuba e até a mítica e grande Nurburgring. Sobra a pena de outros circuitos de dimensão mundial não terem sido licenciados (SPA Francochamps, Monza), pois o grau de detalhe aplicado em cada uma é simplesmente colossal. O traçado alemão de Nurburgring, com os seus mais de vinte kilómetros é uma absoluta perdição em rigor. Os nomes dos pilotos consagrados estão pintados pelo asfalto, o público assiste em zonas circunscritas, o arvoredo, o ambiente de pista durante a manhã o fundo e o castelo visível da enorme recta, é todo um recorte sem precedentes. Todo o jogo apresenta um grafismo extraordinário, acima da média, muito colorido, com os recortes da publicidade puxados a lustro em grandes contrastes capazes de rivalizarem com a melhor das transmissões televisivas. As pinturas e desenho dos carros, os ângulos de captação e recolha de imagens são do mais poderoso até ao momento. Talvez o céu dos circuitos pudesse estar menos redoma e mais espaço aberto, mas também há o pormenor da luz solar que é fixa alimentando o jogo das sombras e pontos de claridade. Muito realista. A parte dos gráficos, para mais beneficiados pelos belos 60 frames por segundo, formam aqui um pack absolutamente delicioso que não deixam passar ninguém pela indiferença. Um verdadeiro road car show. Tudo é concebido ao mais ínfimo detalhe. E depois há outros aspectos estupendos como a acumulação de sujidade (proveniente de óleos e borracha na pista) na grelha frontal e nas partes laterais dos carros.

O modo multiplayer mostra-se quase perfeito dentro de um Xbox Live adequado ao estabelecimento e fornecimento de condições para essa perfeição. Ou seja, o decréscimo para o quase deve-se a certas falhas nas ligações que prejudicam o acesso salas de espera. E mesmo após a entrada num gupo de oito pilotos (no máximo), ocorrem, amiúde, situações estranhas como pilotos que entram na corrida enquanto outros ficam na sala, quebras súbitas, entre outras situações esporádicas. Mas também não é nada que possa pôr em causa um sistema, globalmente, mais desenvolvido que nos jogos congéneres. Há a possibilidade de formar campeonatos, organizar equipas de dois pilotos a partir das cores, seleccionar apenas uma categoria de carros ou até mesmo um carro da mesma categoria. Um vasto número de opções que tanto pode ser aplicado em corridas simples, sem contribuição para o ranking, como noutras competições que atribuem créditos e concorrem para o desenvolvimento da classificação individual numa escala mundial. E que dizer dos modos pintura e fotografia, outros prolongamentos e derivações deste enorme jogo? Acrescentam uma vertente pessoal. Possibilidades adicionais de alimento ao "porn-car", funcionando na prática como jogos suplementares, podendo levar o mais rigoroso jogador a perde-se na pintura das suas relíquias através de um complexo editor de imagem, infelizmente não sendo tão fácil de manobrar como seria desejável. Mas para algo que se realiza através de um comando de consola, até andou bem a equipa de produção. A seguir é só enviar as fotos (captadas nos mais variados ângulos) para o site que logo as podemos mostrar aos amigos ou publicar pelos meandros da net. Dá sempre um gosto e satisfação pessoais captar momentos oportunos, belas passagens e acidentes, tudo ao jeito do fotógrafo mais profissional. E nas imagens transparece a essência de FM2: um título destinado ao pormenor, à competição automóvel. Nesse que é o seu principal desígnio, a recriação o mais fiél possível de acesas e disputadas corridas, a velocidade em pista pratica-se apenas e só ao som dos motores. A única música do jogo (variada e bem escolhida) escuta-se no passeio pelos menus e quadros de opções, porque em pista só há lugar para dois elementos primordiais: um carro e um condutor.
9/10