
Decorria o ano de 2002 quando me propuseram viajar até Los Angeles com o objectivo de fazer a cobertura dos jogos da Playgames, financiador de todas as despesas da deslocação. Assim começou a minha primeira aventura numa E3, um evento onde nunca tinha metido os pés mas pelo qual eu já estava apaixonado. Como afortunado, recebi em casa o cartão de acesso ao evento de “expositor”, visto que eu trabalhava no Gamespot que tinha um enorme stand no meio da feira.
A aventura começa em Lisboa com um subtil pormenor, eu tenho um enorme pavor a aviões e tinha pela frente uma viagem que iria durar pelo menos 22 horas, nas quais 13 horas seriam passadas no interior de um Boeing 747 da Luftwansa. E foi no aeroporto de Frankfurt que descobri que tinha uma certa inclinação para aeroportos, isto é, perder-me no meio de um aeroporto começou a ser uma situação perfeitamente normal para a minha pessoa. Subi elevadores, desci elevadores, corri no meio de longos corredores, regressei duas, três, quatro vezes ao ponto inicial e não havia meio de descobrir o terminal internacional daquilo que eu já denominava com o “diabo gigante alemão”.
Até que descobri um grupo de turistas japoneses que tinham ar de que iam para Los Angeles (intuição tuga) e resolvi ir atrás deles... resultou! Antes de entrar no avião reuni-me com o pessoal da Playgames e a tremer por todos os lados, lá me sentei no meu lugar e rezei a todos os anjos para chegar são e salvo ao destino. Fiquei deliciosamente alojado no Lowe Santa Mónica Beach Hotel de 5 estrelas. Nesse primeiro ano podia ter conhecido Los Angeles e Santa Mónica, mas aqui o rapaz lembrou-se de se documentar sobre o destino antes de viajar. O resultado foi este, conheci um McDonald que ficava a três passos do hotel, um clube de bowling porque fui acompanhado com o pessoal da Ecofilmes, o pontão de Santa Mónica no primeiro dia e o recinto da E3. O resto do tempo passei no quarto do hotel porque descobri em Lisboa que ia para uma das cidades mais inseguras do mundo... eu sei... sou mesmo tuga!
E3 e confesso que foi um tremendo choque para mim. A entrada no seu interior é uma situação que só podia ser vivida no local, eu fiquei paralisado a olhar para aquele mundo durante uma hora. Simplesmente não conseguia mexer-me do local. Após o embate inicial lá fui descobrir a feira dos meus sonhos e sinceramente adorei. Comecei a contar quantos plasmas gigantes estavam pendurados no ar, mais de mil plasmas e depois fui descobrir a E3!

Ao fim de cinco dias descobri que os pés e a cabeça são a parte do corpo que mais sofre na semana da E3. E por muito que não acreditem, na minha primeira E3 não dei muita atenção às Babes, eu estava mais interessado em jogar tudo, todos os jogos! Claro que ao fim de quatro horas descobri que seria impossivel jogar todos os jogos e aprendi como todos os outros visitantes, a andar de stand em stand com o objectivo de levantar press-kits e gadgets que as empresas ofereciam aos media.
O regresso a Lisboa foi calmo, excepto no aeroporto de Frankfurt onde mais uma vez me perdi. Chegado a Lisboa dormi mais de vinte e quatro horas e andei um mês feliz até que descobri que tinha sido despedido.
Depois de um ano de ausência, em 2004 já pela G4mers tive a oportunidade de ir mais uma vez à E3 e claro que aceitei a dura tarefa. Escolhi ir pela Air France e por Paris, mais precisamente pelo aeroporto de Charles De Gaulle. O Boeing desta vez foi modelo 777 e fiquei de tal forma apaixonado por ele que nunca mais o larguei, sempre que ia a Los Angeles escolhia de propósito o 777. Desta vez fui sózinho, numa aventura de sete dias, naquela que eu pensava ser a cidade onde podia levar um tiro no meio da rua. Tal como Vasco da Gama, descobri uma cidade gigante mas tranquila desde que se respeite certas regras.
E no meu segundo ano, já fui capaz de praxar os novatos e não cometi os erros de caloiro. Também foi neste ano que descobri que era melhor para mim trazer uma mala grande com pouca roupa, porque no regresso ia de certeza a abarrotar. Só t-shirts oferecidas pelas editoras, trouxe para Lisboa 25 tamanho XXL! E como perdi o medo e estava hospedado num hotel no meio de West Hollywood resolvi descobrir a meca do cinema e sair do quarto do hotel. Com outros portugueses, jantei em restaurantes famosos, descobri o célebre Hooters, fui a festas organizadas pelas grandes editoras, conheci imensos programadores e produtores de jogos e muitos jornalistas europeus e americanos. A carteira de contactos cresceu imenso, nomes como Michel Cassius, Craig Priddle, David Perry, Sam Lake, Yoshi Ono, Peter Moore e Chris Lewis entraram nela, aumentando substancialmente o seu valor.

Vivi ao máximo a minha segunda E3 e ao fim de sete dias, regressei a Lisboa. Para gozar ao máximo o meu regresso, combinei com o Nelson Calvinho da revista Hype! que o iria buscar ao hotel e surpreendi-o com uma limusine enorme, regateada ao porteiro do meu hotel, que lá convenceu o primo a cobrar apenas metade do preço. Chegados ao aeroporto, começou a longa espera pelo avião. Ao fim de quatro horas de espera, deram-nos senhas para comermos num dos restaurantes e explicaram-nos que o avião tinha uma pequena avaria e que esta estava a ser resolvida pelos técnicos.
Resolvida a avaria, deram luz verde para entrarmos no avião, as portas fecharam, os cintos de segurança foram colocados, eu descobri que estava um bocadinho mais gordo porque apenas consegui encaixar no meu lugar e ouve-se uma voz: “Boa noite senhores e senhoras. Fala o comandante do avião, pedimos desculpas pelo atraso, mas devido a uma avaria tivémos que mudar o computador de bordo. Desejamos a todos uma boa viagem”.

BOA VIAGEM??? COMPUTADOR DE BORDO??? Acreditem, eu naquele momento queria gritar e dizer: “Abram as portas” Quero sair!!!”, mas devido ao cansaço e à hora tardia, deixei-me ficar caladinho e milagre dos milagres, pela primeira vez adormeci num avião! Acordei já em França com a hospedeira a oferecer-me o pequeno-almoço. O avião aterrou e tinha exactamente uma hora para entrar no outro avião que iria levar-me para Lisboa. Sabem o que me aconteceu? Precisamente isso, perdi-me no meio do aeroporto e como tuga, corri como uma lontra muito pesada, parando em todos os balcões pedindo para impedirem que o meu avião fosse embora sem a minha pessoa. Fui a última pessoa a entrar e humilhado sentei-me no primeiro lugar que encontrei com os meus colegas de viagem a rirem desalmadamente com a minha figura. Mas ainda não acabou!
O avião não levantava voo, porque o comandante recusava partir. A razão era simples, havia um tuga que estava sentado na classe executiva quando devia estar na classe económica... o tuga era eu. Resolvido o enigma, levantei-me, vi os meus colegas perdidos de riso já com dores de barriga de tanto rir e lá fui para a parte detrás do avião com os olhos postos no chão.
Na próxima rúbrica vão descobrir as minhas aventuras nas outras E3. Espero que tenham gostado!