
Actualmente, a industria dos videojogos está ao rubro. Os novos lançamentos são cada vez mais mediáticos, as entrevistas com criadores de jogos mais frequentes, e as grandes empresas tentam, mais do que nunca, dominar o palco que dá a conhecer as suas propostas tanto ao consumidor comum como ao jogador veterano. No meio desse turbilhão de informação, tem vindo a crescer uma outra industria paralela: a imprensa dos videojogos.
De facto, parece que todos os anos surgem novas propostas de leitura na nossa banca habitual – neste nosso pequeno país à beira-mar plantado, temos não menos de seis publicações especializadas no tema. Isto em adição a propostas da imprensa inglesa, francesa e espanhola, sempre presentes nas nossas bancas. Se considerarmos que na vastidão da internet há uma quantidade incontável de sites maiores e menores, generalistas ou dedicados uma plataforma/marca (por vezes até a uma série de jogos), é seguro afirmar que informação não está em falta para o gamer de hoje.
Realmente, estamos muito longe dos tempos em que uma pequena revista mensal nos abria uma janela para o futuro distante, e que as novidades, essas conheciam-se a explorar as montras e expositores das lojas e clubes de vídeo. Actualmente, qualquer informação está à distancia de um clique do rato, e visitando três ou quatro sites facilmente cobrimos tudo o que há de novo na industria. E na opinião de alguns, isto desvaloriza muito a imprensa de videojogos tradicional – afinal de contas, para quê pagar para se ter, um mês mais tarde, a mesma informação, por vezes até menos, devido a restrições de espaço que não existem na imprensa online?
Infelizmente, isto levou-nos a um estado de alguma imaturidade entre muitas das publicações do género. Mais de que uma batalha de qualidade e rigor jornalístico, parece que cada vez mais nos deparamos com lutas para exclusivos de capa (frequentemente expostos na internet antes da publicação em questão chegar ás bancas), ofertas de DVDs com vídeos e demos, e é claro aquele “cálice sagrado” do marketing, o Jogo de Oferta. Algo está muito errado quando uma revista “triunfa” sobre outra por trazer um jogo melhor (ou mais conhecido) como oferta.
A batalha, a meu ver, deve travar-se na qualidade daquilo que é escrito (afinal, será para ser lidas que as revistas servem, e não para oferecer brindes – que satisfação terá, para além do ordenado no final do mês, o editor de uma revista que é comprada apenas pelos extras e fica por ler na mesa de cabeceira?). É certo que existem muitas pessoas que o farão pelo dinheiro, claro, mas no geral, penso que as pessoas que trabalham nestas áreas o fazem porque realmente têm gosto em escrever sobre e divulgar o mundo dos videojogos.
É importante que se largue o estigma de que as revistas devem ser escritas acessivelmente e para os mais jovens – as pessoas que jogavam jogos há 10 anos atrás são hoje adultos. A pobreza da escrita, que com muitas palavras consegue não dizer nada, é algo que já me fez largar uma quantidade incontável de revistas, nacionais e estrangeiras. Não que eu defenda uma linguagem excessivamente rebuscada – isso é cair no ridículo pelo extremo oposto. Um discurso quase digno de uma tese cientifica académica não é para aqui chamado, pois o que se procura é um texto agradável e inteligente, e não um conjunto de malabarismos de vocabulário que canse e aborreça o leitor. O objectivo e escrever algo que qualquer um possa ler, apreciar e sair mais informado do que antes de ler.
E falando em informação, também é um erro comum na imprensa actual o sub-aproveitamento do espaço. Este já é pouco só por si, mas quando o escritor gasta os parágrafos iniciais a falar da sua vida pessoal, ou numa dissertação acerca da forma de vestir do protagonista do jogo, é porque algo não vai bem.
Ainda assim, a imprensa tradicional é, a meu ver, indispensável e insubstituível. É claro que em termos visuais, nada é melhor do que apreciar os novos ecrãs de um jogo no nosso monitor, mas não há nada como a portabilidade de uma revista que se pode ler no comboio, ou à noite antes de dormir.
É, no fundo, uma forma diferente de providenciar conteúdo de um mesmo tipo – mas a imprensa é paga, é um negócio, e como tal, deve-se pedir mais qualidade – entrevistas extensas, artigos de opinião com interesse para jogadores e criadores de jogos. O visual é importante, mas deve-se privilegiar sempre o conteúdo escrito, assegurar que o leitor encontre as respostas às suas perguntas ou fique mais informado e com outras perspectivas acerca da industria e da cultura de videojogos. É nestas coisas que a imprensa tradicional deve focar a sua atenção, e é realmente nestas coisas que as melhores revistas se têm vindo a destacar – as noticias, essas depressa ficam desactualizadas muito antes do fecho de uma edição.
Como conclusão: não, a internet não matou o papel. Mas é preciso saber ir mais além. Neste momento a imprensa digital procura superar-se diariamente, e a imprensa tradicional deve movimentar-se no sentido não de ser melhor, mas de marcar a diferença, de oferecer aos leitores conteúdos que façam sentido num período mais abrangente do que o mês em que sai a revista.
Porque tudo tem o seu lugar, e espero sinceramente que a industria cresça muito, que os videojogos tenham cada vez mais popularidade, e que os sites da especialidade os acompanhem, mas que daqui a dez anos eu ainda possa passar uma hora a apanhar sol, enquanto leio as minhas revistas de eleição, nacionais e não só...
-- Luis "Ash" Magalhães
“I believe everyone has at least one skill that they excel in over all others. It's something that defines who they are.” --chaos, "Xenosaga"
Sim senhor, parabéns pelo trabalho que estão a desenvolver neste espaço
Tens muito boa escrita Luis. Sabes expremer bem uma laranja e dar todo o sumo e muito bem estruturado. Tenho inveja. Falta nas revistas exclusividade. Algo que seja pouco conhecido, e todas essas "entrevistas extensivas", etc...
A EDGE é muito boa. Tem tudo aos promenores. Quem melhor que os viciados para não gostar disso?
Já agora um aparte. Uma vez puseram uma imagem neste site, há muito tempo, de uma marca que a Nintendo registou. Até então, não se sabe para que servia, mas pode ser que esteja relacionado com a Revolution. A imagem era relacionado com algo tipo "eye toy". Pensem nisso porque é uma boa hipótese.
Bem a mensagem de parabéns já começa a ficar gasta e como já sabes que aprecio à muito a tua escrita são desnecessários.
Quanto ao artigo concordo com tudo o que foi dito acho que continuará sempre a haver espaço para os dois formatos sendo que aquele que tem como suporte o papel terá que se adaptar à realidade de mercado e escolher algo mais na linha do culto e dos artigos de opinião, IMO.
Acho que também seria interessante partilhar-mos uns com os outros as publicações como costumamos adquirir todos os meses até para podemos descobrir novas hipóteses de escolha que nos estejam a passar ao lado por este ou por aquele motivo.
No meu caso compro todos os meses 2 revistas, a portuguesa Maxi Consolas e a inglesa EDGE, e vocês?
hm.. thank you