
Os jogos já não são o que eram. Já não há originalidade. Já não há paixão. Já não há a criatividade que havia quando uma, duas ou três pessoas podiam juntar-se numa garagem e produzir uma obra de arte. Este tipo de pensamento fatalista e decadentista é um lugar-comum hoje em dia, por vezes em sites e revistas da especialidade, por vezes em declarações de um ou outro produtor de videojogos, mas mais frequentemente em fóruns, chats ou qualquer outro médium em que fãs de videojogos exprimam as suas opiniões.
De facto, é impossível hoje em dia um jogo ser realizado por um grupo reduzido de pessoas. E é verdade que grande porção da industria se rendeu à magia do “copy-paste”, à reciclagem constante de argumentos, personagens, conceitos e mesmo gráficos e som. Mas será que isso só por si declara a morte desta jovem forma de entretenimento, forma de arte?
Pois se temos jogos que se re-embrulham e se re-vendem todos os anos, temos também jogos que se reinventam, jogos que se aprimoram, e alguns poucos que vêem do nada e deixam a sua marca. Dias atrás, ao rever uma lista dos jogos que planeava jogar até ao final do ano, deparei-me com uma lista maioritariamente constituída por sequelas, ou jogos baseados em franchises conhecidas. Realmente, neste ano temos uma sobre-abundância de sequelas, mas será isso mau?
É inegável a qualidade de Paper Mario 2, a beleza e imersão de Metroid Prime 2, a adrenalina e emoção de HALO 2, ou a riqueza do argumento e desenvolvimento de personagens de Star Ocean: Till the End of Time. E o que dizer da expansividade e vastidão de GTA: San Andreas? Um jogo gigantesco, com uma quantidade assombrosa de actividades para realizar. Burnout 3 e a sua acção arcade devolveu-me o gosto por jogos de corridas, gosto que eu havia perdido desde o mítico Rage Racer da Playstation original. Ao ver estes jogos, deparo-me com coisas que imaginava há dez anos atrás – em alguns casos, com coisas que superam aquilo que eu imaginava.
E o que dizer de jogos jogos originais que surgiram este ano? Fable, não cumprindo todas as suas promessas, deu-nos um RPG diferente, com um ambiente espectacular num mundo vivo e vibrante, deu-nos o prazer de ser idolatrados, de viver todos os aspectos da vida do nosso avatar. Ninja Gaiden mostrou-nos o renascer de um clássico, deu-nos um desafio, um gigante numa época em que a maioria dos jogos são fáceis demais, mostrou-nos um jogo de acção com uma precisão e polidez de jogabilidade raramente vistas num jogo 3D. Katamari Damacy (a que os Europeus, infelizmente, mantêm-se ainda alheios) espantou meio mundo com a sua simplicidade, o seu conceito bizarro, e o enorme prazer que alguns minutos ou várias horas de jogo suscitam. Disgaea: Hour of Darkness e Fire Emblem fizeram voar dezenas de horas livres, de volta de um género que todos nós no ocidente julgávamos morto, um devido à sua variedade estratégica e design carismático, outro devido à sua história e riqueza táctica.
Como podem os jogos da minha infância comparar-se a estes gigantes? Como podem os jogos da minha infância comparar-se com jogos que superam aquilo com que eu sonhava à dez anos? Dentro da minha cabeça, os bons momentos que tive com eles mantêm-se vivos e agradáveis. Mas indo jogá-los hoje em dia, só uma pequena parcela desses geniais jogos mantém algum do seu apelo, e uma quantidade ainda menor consegue divertir-me tanto como os jogos actuais. Sim, porque quando dou por mim a jogar um destes jogos de 2004, percebo que nunca me diverti tanto com videojogos como me divirto hoje. Nunca antes estive tão imerso nos seus mundos, nas suas histórias, ou no simples prazer de os jogar.
Como escrevi no inicio deste artigo, muitas pessoas revelam preocupação com o estado actual dos videojogos. Mas estarão a ser sinceras consigo mesmas? Não estará o problema nelas mesmas, em excesso de nostalgia, numa incapacidade de analisar devidamente o passado e assim perdendo o interesse no presente? Ou não estarão essas pessoas simplesmente fartas de videojogos, por bons que sejam? Porque sim, a industria tem os seus problemas, e sim, há coisas que se notam a piorar. Mas há tanto que melhora, e depois de todos os momentos que relembrei ao escrever estas linhas, não me restam duvidas – nunca um ano foi tão bom para os videojogos como 2004. Que venha 2005.
-- Luis "Ash" Magalhães
"640K ought to be enough for anybody." -- Bill Gates, 1981
"Concordo com ambos, basta só pensar que num curto espaço de tempo vamos receber Gran Turismo 4, Resident Evil 4, Metal Gear Solid 3, Splinter Cell Chaos Theory, enfim o que não há é mesmo tempo porque qualidade não falta... ;)"
Originalidade ao melhor nível, visto que que somente fizeste menção a sequelas :)
Ash és o maior pá! Parabens pelo artigo fantastico ;)
Parabéns, Ash, por mais um excelente artigo que a meu vêr reflecte em muito o que realmente se passa com o actual estado dos jogos e a maneira como nós os vêmos. É uma verdade que a originalidade dos jogos anda muito a desejar mas a qualidade dos mesmos tem vindo a aumentar considerávelmente e por vezes a falta de tempo leva-nos a perder alguns desses grandes jogos.
2004 foi um grande ano e este promete ainda mais...basta vêr o mês de Março.
Obrigado também ao Azelpds e ao Hogwart por contribuirem, cada um com os seus recursos, para a divulgação desses mesmos jogos.
Ainda bem que gostaram do artigo. A verdade é que, enquanto há jogos antigos que ainda se jogam muito bem hoje, os jogos de hoje em dia são, na generalidade, bem melhores. São tempos excelentes para se ser gamer. ;)
Daqui a 15 dias cá "voltamos". =)
Concordo com ambos, basta só pensar que num curto espaço de tempo vamos receber Gran Turismo 4, Resident Evil 4, Metal Gear Solid 3, Splinter Cell Chaos Theory, enfim o que não há é mesmo tempo porque qualidade não falta... ;)
Congrats pelo artigo e vai de encontro a muitas das minhas opiniões sobre o assunto.
Quem diz que hoje em dia não há jogos bons e por aí adiante está-se a enganar a ele próprio e o problema está é na pessoa em si. Tomara nós termos é o tempo para jogar tudo o que queremos e é lançado hoje em dia ^^
"Concordo com ambos, basta só pensar que num curto espaço de tempo vamos receber Gran Turismo 4, Resident Evil 4, Metal Gear Solid 3, Splinter Cell Chaos Theory, enfim o que não há é mesmo tempo porque qualidade não falta... ;)"
"Originalidade ao melhor nível, visto que que somente fizeste menção a sequelas :)"
Ainda não percebi qual é o problema que muitas pessoas têm em relação às sequelas, desde que sejam da qualidade das que referi qual poderá ser o problema? Mas isto é mesmo uma questão de gosto e como diz o outro, gostos não se descutem.
Já agora essa do anonimo é no mínimo covarde, assume as tuas opiniões e diz quem és porque eu não tenho qualquer tipo de problema em assumir as minhas e vêlas contrariadas por alguém, só assim podemos discutir diferentes pontos de vista que é das coisas mais saudáveis que há, IMO...
Fica bem... ;)