Thief: Deadly Shadows

Há anos atrás, a Looking Glass Studios criou Thief: The Dark Project , um jogo destinado a permanecer, ironicamente, na escuridão. Um jogo de stealth na primeira pessoa, foi aplaudido pela imprensa como um dos pontos altos na história dos videojogos para PC, e teve um seguimento quase religioso por parte de uma pequena minoria, mas nunca consegui cativar o grande publico. O mesmo se passou com a sequela, e como tal, durante bastante tempo esteve em causa a génese do terceiro capitulo da trilogia originalmente planeada.

Agora, a Ion Storm, criadores de Deus Ex: Invisible War, termina magistralmente a obra da Loooking Glass , com este Thief: Deadly Shadows .



Uma fantasia diferente
Garrett, o anti-herói da série, é um ladrão mestre, que actua numa cidade conhecida simplesmente como “A Cidade”. A Cidade em si é um universo fantástico muito particular, que se enquadra naquele nicho da fantasia menos explorado nos videojogos, a “steam fantasy”, um universo medieval com laivos tecnológicos. Nesta cidade, além das autoridades e cidadãos comuns, coexistem num balanço precário duas facções opostas, os naturalistas “Pagans” e os mecanistas “Helmites”. Existe ainda um terceira facção, os secretos “Keepers”, que se auto intitulam os guardiões do balanço da cidade, os únicos capazes de ler a secreta e poderosa linguagem mágica dos “gliphs”. Raramente vistos, poucos conhecem a existência desta facção que visa conduzir subtilmente o destino da Cidade. Garrett é um aprendiz Keeper renegado, determinado a utilizar as habilidades que lhe foram ensinadas para proveito próprio.

É neste background rico e com um argumento magistral onde não faltarão surpresas e intrigas que o jogo decorre, num dos mundos mais cuidados visto nesta geração.



Tudo o que é teu, em breve será meu
O propósito do jogo, naturalmente, é fazer fortuna á custa do alheio. Iniciamos o jogo num tutorial que nos guia passo-a-passo durante um assalto. Aqui aprendemos as bases da jogabilidade: controlar a velocidade a que andamos e escolher o terreno por onde passamos para evitar ruídos, escolher o percurso óptimo para aproveitar ao máximo as sombras, com base nas indicações da nossa jóia, presente no fundo do ecrã, que indica o nosso grau de stealth , usar o nosso cacete para deixar inimigos inconscientes, e finalmente como utilizar alguns dos itens á nossa disposição para facilitar a nossa missão.

O repertório de Garrett é deliciosamente variado, e dele contam, entre outras coisas, flechas de água para apagar tochas e assim facilitar o caminho, bombas de luz para cegar oponentes e facilitar fugas em caso de sermos apanhados, flechas de musgo para cobrir superfícies potencialmente barulhentas e até mesmo pequenas minas de proximidade para lidar com patrulhas mais difíceis de evitar. Estas e muitas mais são as ferramentas que temos disponíveis para utilizar engenhosamente, muitas vezes para propósitos que não os seus principais. De destacar o mecanismo de lockpicking, em que é necessário tacto e precisão com os manípulos analógicos.

A furtividade é fundamental, visto que Garrett não é nenhum guerreiro, e uma batalha contra um oponente será difícil e deixá-lo-á habitualmente em mau estado, para alem de atrair outros oponentes. Uma batalha em desvantagem numérica é quase sempre morte certa, dai a extrema importância de ter presente um bom plano de fuga, um bom domínio das ferramentas que nos ajudem a efectuá-la, e uma boa capacidade de permanecer escondido até aos ânimos arrefecerem.

Os ambientes interactivos são excelentes, recheados de adereços, muitos dos quais podem ser roubados e posteriormente vendidos, outros que podem ser agarrados e utilizados, por exemplo, para criar barulho e distrair adversários, e ainda alguns que se podem revelar inconvenientes – derrubar um barril enquanto caminhamos pode atrair atenção indesejada. Em cada zona existem ainda três objectos especialmente valiosos, e dependendo do nível de dificuldade escolhido teremos que roubar um certo numero deles como objectivo secundário, bem como uma determinada percentagem de “saque” normal.



As sombras mortíferas
Visualmente, o jogo é um mimo. Os cenários são artisticamente fenomenais, com uma atenção ao detalhe de louvar. Nas ruas da cidade, ou em alguns edifícios mais generalistas, notam-se por vezes decréscimos na qualidade, mas nada de especial quando comparado á globalidade do jogo. Os efeitos de luz e sombra também são soberbos, com especial destaque para a luz do luar. Os reflexos, as sombras e tudo mais, além de completamente relevantes para a jogabilidade, são também extremamente realistas. Os modelos de personagem apresentam detalhe considerável e são muito variados. No meio de tudo isto, o que sofre é a frame-rate . Instável nos seus melhores momentos, é sem duvida o primeiro sinal de algum descuido de programação. No entanto, tendo em conta o ritmo de jogo habitual, raramente estragará o impecável ambiente de jogo, e ainda mais raramente interferirá na jogabilidade.

O jogo permite ainda uma apreciação tanto na primeira pessoa como na terceira. Nenhuma delas se sobrepõe á outra, o jogo joga-se perfeitamente e na sua totalidade em qualquer uma delas, no entanto é inegável que a imersão é consideravelmente maior na primeira pessoa, sendo a terceira pessoa útil para nos adaptarmos ao jogo numa fase inicial, ou para utilizar o angulo da câmara para espreitar pelas esquinas quando encostados a uma parede. A minha experiência foi predominantemente na primeira pessoa, mas isso é algo que o jogo deixa ao critério e gosto de cada um.

O som é impecável, e importante para a jogabilidade. A musica é quase nula, com predominância do som ambiente. É crucial ouvirmos os passos e barulho dos nossos inimigos, e ainda mais importante ouvir as suas conversas, para descobrirmos novos objectivos, caminhos alternativos para o objectivo presente, ou simplesmente para termos uma melhor ideia do que nos aguarda. O voice-acting é brilhante, seja numa das personagens principais um num simples guarda, tudo contribuindo para uma imersividade máxima.

Finalmente, as cutscenes que narram porções da história são apresentadas num estilo artístico refrescante, parecendo verdadeiras pinturas em movimento, sempre com um ênfase na escuridão e nas sombras, fiel ao clima do jogo.



Um mundo vivo e dinâmico
Entre “missões”, temos a possibilidade de explorar as ruas de “A Cidade”. Esta metrópole é um verdadeiro mundo, com dezenas de NPCs circulantes, nas suas tarefas rotineiras. Podemos apenas ir a um dos vários locais de mercado negro vender as nossas ultimas “aquisições” e comprar novas ferramentas, mas é extremamente gratificante explorar a cidade, os seus cantos e recantos, encontrar edifícios acessíveis onde podemos entrar e assaltar, escutar conversas que nos podem dar sugestões de side-quests lucrativas, ou mesmo assaltar inesperadamente um cidadão indefeso... E não só. Poucas coisas darão mais satisfação num videojogo do que silenciosamente roubar a bolsa com o salário de um guarda que está á nossa procura. É este o tipo de liberdade que Thief nos oferece entre missões.

A inteligência artificial, por sua vez, é de louvar, apesar de alguns bugs menos agradáveis. Os guardas e cidadãos darão habitualmente pela falta de objectos roubados e iniciarão uma busca, repararão em poças de sangue deixadas por mortes mais descuidadas. Por outro lado, se conquistarmos a simpatia de alguma facção, verificaremos que os seus elementos nos ajudarão se virem que estamos a ser ameaçados. Como disse, o sistema não está ausente de bugs – numa ocasião, uma mulher viu um homem a assassinar outro, mas quando me viu alguns segundos depois declarou-me imediatamente como o assassino, correndo aos berros pela rua. Um guarda foi alertado pêlos seus gritos, mas, não me vendo em lado nenhum, apressou-se a atacar um civil em nada relacionado com o assunto. Uma situação estranha, que aconteceu apenas uma vez ao longo do jogo, mas que demonstra uma certa instabilidade do sistema de inteligência artificial.



Falta de acabamentos
É esta a cruz de Thief , uma cruz que infelizmente é muito comum recentemente em lançamentos da Eidos. O jogo teve uma marcada falta de tempo em testing , e consequentemente veio para o mercado com uma grande quantidade de bugs , uns mais graves que outros. Além dos já mencionados problemas de IA e de frameskipping , temos problemas mais frustrantes.

Por um lado, o jogo tende a bloquear quando tentamos gravar em ocasiões de maior processamento, corrompendo irremediavelmente o save, pelo que é aconselhado gravar alternadamente em dois ou três saves.

Por outro lado, o jogo é apenas jogável na dificuldade “Normal”, sendo que, jogando em qualquer uma das outras, o simples facto de fazer “load” reverte a dificuldade para “normal”. Ou seja, a única forma de jogar noutra dificuldade acaba por ser fazer uma missão do principio ao fim, sem sequer morrer.

Finalmente, os tempos de loading são demasiado longos, mais um exemplo de programação descuidada, e se isto não é grande problema nas missões, divididas habitualmente em apenas duas áreas, é algo aborrecido na cidade, dividida em várias.

Comentários finais:
Thief: Deadly Shadows é o perfeito exemplo de como a sofreguidão das distribuidoras em cumprir datas de lançamento pode destruir um clássico. A sua apresentação artística é impecável, o mundo mais elaborado que vi nos últimos anos, tanto em termos visuais como na dinâmica de personagens e facções no ambiente vivo que é A Cidade.

A variedade de locais, desafios e situações que nos propõe é verdadeiramente única num jogo do género, indo desde os maiores desafios de furtividade até missões dignas do mais assustador dos “ survival-horrors ”. A jogabilidade é intocável, com uma multitude de opções e liberdade nunca antes vistas num jogo de stealth , e o argumento é soberbo, desenvolvendo-se lentamente, mas num escalonar de intriga e suspense que manterá os mais pacientes colados ao ecrã durante cada minuto das 17 – 20 horas que levarão a acabar o jogo.

É uma pena que um jogo com tanto potencial e tanta qualidade, se veja impedido de ter o titulo de clássico por questões meramente técnicas. Fica, no entanto, a declaração de que este é um jogo excepcional, e que proporcionará uma experiência incrível e única a qualquer um que esteja disposto a perdoar os lamentáveis descuidos de acabamento.

(c)2004 / Luis "Ashura" Magalhães
Thief: Deadly Shadows
Produtora: Ion Storm
Consola: Xbox
Tipo: Aventura/Stealth
Lançamento em Portugal: Já disponível
Preço: 64,99 Euros
Site oficial
http://www.eidos.co.uk/gss/thief_ds/
Vídeos
Vídeo 1 (FTP)
Vídeo 2 (FTP)

Wallpaper



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